"Porque? Qual é o problema?"
O académico grego indicou com o polegar um magote de turistas que admiravam a máscara de Agamémnon, a figura mortuária de ouro que constituía uma das principais atracções do Museu Arqueológico, enquanto um guia lhes dava explicações em alemão.
"Esses cabrões andam a infernizar-nos a vida", afirmou o arqueólogo com um semblante pesado. Abanou a cabeça como se quisesse desanuviar e respirou fundo. "Enfim, ignoremo-los." Voltou-se para Tomas e procurou concentrar-se, num esforço para retomar o fio da conversa. "Diga-me, professor, o que espera encontrar de especial na câmara onde descobrimos o 26
manuscrito?"
0 incidente desagradou a Tomas, mas optou por não fazer comentários e por se limitar ao assunto que o trouxera a Atenas.
"Os livros perdidos dos Avestá."
"Está a falar de que?"
"Sabe, alguns dos livros das escrituras zoroastrianas não chegaram até nós", explicou. "Quando os muculmanos invadiram a Persia, no século VII, levaram a cabo um genocídio cultural do zoroastrismo. Saquearam templos, queimaram escrituras, massacraram fiéis. 0 cânone dos Avestá é composto por vinte e um livros, mas a maior parte desapareceu. Só conseguimos recuperar um quarto dos textos originais. Por exemplo, sabemos através de documentos em pahlavi que havia escritos apocalípticos que falavam sobre o fim dos dias e uma grande guerra, no final da qual o Céu enviará um grande Deus que destruirá o mal pelo fogo e pela espada."
"Hmm... isso tem tonalidades messiânicas."
"Pois tem. Pensa-se que esse livro perdido terá inspirado várias seitas judaicas, como os essénios e os cristãos, nas suas doutrinas sobre o fim do mundo e o julgamento final."
"0 professor esta à procura desse livro?"
"Desse e de um outro, o décimo terceiro livro dos Avestá.
Chamam-lhe Spend Nask e trata-se na verdade de uma biografia de Zoroastro. Sabemos que o Spend Nask foi escrito, mas desde a invasão muçulmana que nunca mais ninguém lhe pôs os olhos em cima."
Soprou. "Puf, sumiu-se!" Um brilho quase imperceptível cintilou no esgar vivo de Tomas. "Encontrá-lo seria como descobrir a arca da aliança do misticismo, percebe? O Spend Nask encerra solução para os grandes mistérios das três religiões monoteístas, todas elas de certo modo fundadas na vida e na ética de Zoroastro."
Chegaram ao átrio e viram a luz do dia jorrar pela porta principal do museu; estavam quase a sair à rua.
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"E o que o leva a pensar que esses livros estão aqui em Atenas?", quis saber o arqueólogo, intrigado. "Que eu saiba, a Grécia fica longe da Pérsia..."
"Sim, mas muitos autores gregos antigos fizeram abundantes referências a Zoroastro, a quem chamaram o Príncipe dos Magos e o inspirador de Pitágoras. Platão, por exemplo, disse que ele era filho de Oromazdes. Oromazdes é Ahura Mazda, claro, o Deus zoroastriano, o que significa que Zoroastro era filho de Deus. O próprio Plutarco estabeleceu uma ligação divina a Zoroastro."
"Essa do filho de Deus parece mais uma ideia judaica e cristã", constatou o grego. "E então? Isso não responde à minha pergunta..."
Chegaram à porta principal do Museu Arqueológico e Tomás deteve-
-se, como se o que tivesse para dizer fosse tão importante que não podia ser expresso enquanto caminhava.
"No Livro de Arda Viraf existe uma lenda segundo a qual os Avestá estavam guardados na biblioteca dos reis do império aqueménida, pilhada por Alexandre, o Grande", revelou. "É possível que os homens de Alexandre tenham trazido esses livros aqui para Atenas. Se assim foi, as escrituras zoroastrianas poderão ter escapado ao grande auto-de-fé muçulmano. Quem sabe se o manuscrito que o professor encontrou nas escavações da Biblioteca de Pantainos não faz parte do espólio de Alexandre? E, se fizer, que outros manuscritos poderemos lá descobrir?"
"Acha que poderá estar lá o..."
O arqueólogo deixou a frase suspensa, incapaz de se lembrar do título do livro, tão estranho ele lhe parecera, e foi Tomás que completou a frase, mas em voz baixa, como se receasse que bastasse pronunciar o título perdido para afugentar o gigantesco golpe de sorte pelo qual ansiava.
"O Spend Nask."
Cruzaram a porta. Quando chegaram às quatro colunas que decoravam a entrada, porém, voltaram a estacar e ficaram plantados no topo da grande escadaria. Desta vez não pararam para conversar; os dois 28
académicos imobilizaram-se porque ficaram estarrecidos com o que viam acontecer diante deles, à frente do grande jardim de acesso ao museu.
"C'os diabos!", exclamou Tomás, boquiaberto. "O que raio vem a ser isto?"
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II