"Os Gathas revelam que Deus, ou Ahura Mazda, é pai de várias entidades, incluindo dois irmãos gémeos a quem deu a liberdade de 23
escolher entre o bem e o mal. Um deles, Spenta Manyu, ou Espírito Santo, preferiu o bem e a vida. O outro, Angra Manyu, também conhecido por Ahriman, optou pelo mal e pela morte. Os discípulos de Ahriman são os dregvant, ou seguidores da mentira, e os druj, enganados pela mentira."
O arqueólogo arregalou os olhos.
"Esse Ahriman é... é..."
"O Diabo, sim", assentiu o historiador com o brilho da lâmpada a cintilar-lhe no olhar verde. "Foi a primeira vez que um texto religioso mencionou a existência do Príncipe das Trevas." Tocou com o indicador no manuscrito. "É justamente este texto." Afastou a cabeça e contemplou as linhas grafadas à mão no rolo como se as admirasse. "Percebe então a sua importância?"
O académico grego engoliu em seco, intimidado com o poder surdo, maligno até, que aquele alfabeto enigmático parecia encerrar.
"Sim."
O historiador português assinalou uma linha do pergaminho com a ponta do indicador, como se quisesse reforçar a ideia.
"Este trecho, meu caro, descreve o nascimento do Diabo."
O silêncio na cave do Museu Arqueológico de Atenas prolongou-
-se por mais de uma hora; apenas se ouvia o lápis de Tomás a rabiscar no bloco de notas e ocasionalmente o velho manuscrito ser desenrolado para desvendar mais texto. Ao lado do seu convidado, a respiração o mais leve possível para não despertar o Senhor dos Infernos evocado por aquele texto milenar, o professor Markopoulou permanecia no mais profundo mutismo enquanto mirava com temor reverente as estranhas letras que a lâmpada iluminava com o seu clarão amarelado.
Ao chegar ao fim do rolo de pergaminho, e depois dos derradeiros apontamentos, o historiador português fechou o bloco de 24
notas e encarou o anfitrião.
"Disse o professor que este manuscrito foi encontrado numa câmara escondida por baixo das ruínas da Biblioteca de Pantainos?"
"Correcto."
"Era o único manuscrito que lá existia ou havia mais?"
O professor Markopoulou hesitou.
"Era o único... acho."
A última palavra fez Tomás semicerrar os olhos.
"Acha?"
O grego ficou momentaneamente atrapalhado.
"Quer dizer, pareceu-me ser a única coisa que havia por ali. Mas admito que... enfim, a câmara era muito sombria e talvez não a tenha explorado com todo o rigor. Pode ser que haja mais qualquer coisa, não digo que não."
Tomás endireitou-se e voltou-se para se livrar de uma dor que aparecera após tanto tempo curvado na mesma posição. Depois fez um gesto com a mão, como se o chamasse.
"Vamos andando", disse. "Ainda há trabalho para fazer."
O arqueólogo olhou-o com admiração.
"Onde quer o senhor ir?"
"Às escavações, claro. Temos de verificar se há lá mais alguma coisa."
Os dois académicos arrumaram o rolo numa estante climatizada da cave que o professor Markopoulou fechou à chave. Depois encaminharam-se para as escadas e dirigiram-se ao piso térreo do museu.
"De que está o professor verdadeiramente à procura?"
"Os Avestá são escrituras muito antigas", explicou Tomás. "Temos alguns dos seus livros, como o Gathas, o Vendidad, o Dinkard, o Shah-Nama, o Zardusht-Nama, o Yasht, o Visparat e outros. Por exemplo, o Vendidad, denominação do livro também intitulado Lei contra os Demónios, mostra o Diabo a incitar Zoroastro a renunciar à sua fé em 25
Deus seis séculos antes de Satanás fazer o mesmo a Jesus no deserto."
"Está a insinuar que o episódio evangélico da tentação de Jesus no deserto é inspirado nos textos zoroastrianos?"
"É evidente", assentiu o historiador. "O zoroastrismo é muito importante para compreender certos mitos do cristianismo e das outras religiões assentes na Bíblia. Foi aqui que se introduziram conceitos fundamentais como o livre arbítrio e a responsabilidade individual, o Deus único, o mito do Salvador da humanidade, a figura do Diabo, a luta entre o bem e o mal, o fim dos tempos, o julgamento final e a ressurreição dos corpos, ideias que iriam influenciar as restantes religiões e moldar o mundo como ele é hoje."
Chegaram ao piso térreo e, após cruzarem uma porta de serviço, entraram nas galerias abertas ao público e passaram pela colecção Karapanos e pelo Jardim das Esculturas em direcção à saída. Havia turistas por toda a parte e falavam-se várias línguas, sobretudo alemão, o que pareceu incomodar o arqueólogo.
"Porra de nazis!", vociferou o professor Markopoulou numa voz subitamente tensa. "Porque não vão para a terra deles?"
A agressividade e o tom xenófobo da observação foram tão inesperados, sobretudo porque saíam totalmente fora do contexto da conversa, que apanharam Tomas de surpresa.