"Comecemos, a título de exemplo, por ver o que aconteceu à economia de Portugal desde o nascimento do euro", propôs. "Com o início da moeda única, as taxas de juro caíram para valores irrisórios e, vendo o dinheiro tão barato, toda a gente se endividou. Estado, empresas e famílias foram buscar o dinheiro aos bancos e puseram-se a gastar como malucos. Em 2000 a dívida externa líquida de Portugal era de quarenta e quatro mil milhões de euros, equivalentes a trinta e oito por cento do PIB, e em 2010 já era de cento e oitenta e cinco mil milhões de euros, equivalentes a cento e nove por cento do PIB. Ou seja, a dívida aumentou doze mil milhões de euros por ano! Qualquer dona de casa percebe que Uma evolução destas é insustentável. Mas como os nossos governantes são burros que nem portas, ou mais provavelmente criminosos diplomados, deixaram andar. Os manuais explicam que, em circunstâncias destas, o estado deve reduzir as despesas ou aumentar os impostos para diminuir a despesa privada 362

ou uma mistura dos dois, mas aqueles camelos, com medo de perder votos, fizeram exactamente o contrário."

"Então a culpa não é do euro..."

"Não é de facto do euro", reconheceu o historiador. "Mas a moeda única, com as suas taxas de juro baixas, criou as condições para este descalabro. A má governação fez o resto."

"Pois, tens razão."

"Agora vejamos o desemprego", prosseguiu. "A taxa de desemprego em Portugal em 2000 era de quatro por cento. Em 2011, ano da chegada da troika, estava já nos catorze por cento. Ou seja, o euro não ajudou a combater o desemprego."

"Coño!", praguejou ela. "E o crescimento económico? Qual o impacto do euro no crescimento económico?"

"Uma

desgraça",

respondeu

Tomás.

"O

crescimento

económico em Portugal em 1998 era de cinco por cento."

"Não é assim tão mau..."

"Isso foi no ano antes de nascer o euro", notou o historiador.

"A moeda única apareceu em 1999 e, a partir daí, foi uma miséria.

De 1999 a 2009, ano em que começou a crise das dívidas soberanas, a economia portuguesa cresceu a uma taxa média anual de um vírgula dois por cento, sempre em plano descendente com o avanço da década e em divergência com o resto da Europa. Foi o pior crescimento anual médio do país desde a Primeira Guerra Mundial."

Raquel abanou a cabeça, ainda a digerir estes números.

"Dios mio!", murmurou. "Não imaginava que tivesse sido assim tão mau. Isso deveu-se mesmo ao euro?"

"É difícil ter a certeza. O período do nascimento do , euro coincidiu com o crédito barato que vinha da América, com a integração dos países do Leste da Europa na União, . com a adesão da China em 2001 à Organização Mundial do Comércio e com o maior envelhecimento da população, factos que pressionaram negativamente 363

a economia europeia em geral e a de Portugal em particular.

Considero até que o mais importante destes factores tenha sido a entrada da China no mercado global, que conduziu a uma assustadora desindustrialização do Ocidente. Mas todos estes acontecimentos eram do conhecimento público e os diversos governos, e neste caso os portugueses, deviam ter actuado para enfrentar os desafios que aí vinham. Nada fizeram, com medo de perderem os seus ricos votinhos. Os governantes portugueses foram criminosamente lapsos na preparação do país para os desafios do euro. Os economistas tinham avisado que a perda da moeda nacional, e consequente impossibi-lidade de proceder a desvalorizações que desencorajassem as importações e fomentassem as exportações, obrigava a reformas estruturais que criassem flexibilidade laborai. Nada foi feito. Pior ainda, em Portugal os governos puseram-se a aumentar os salários acima da taxa de crescimento económico. Enquanto a economia crescia entre 1999 e 2009 a uma taxa média anual de um vírgula dois por cento, no mesmo período os salários da função pública cresciam a uma taxa média anual de um vírgula sete por cento, o que significa que parte desses aumentos não resultava de efectivo crescimento da riqueza do país, mas de empréstimos contraídos no exterior. Como os salários cresceram mais do que a economia, os produtos portugueses tornaram-se mais caros e, consequentemente, ainda menos atractivos no estrangeiro.

Nestas condições, a economia portuguesa era um desastre à espera de acontecer."

"Sim, mas qual o contributo do euro para esse desastre?"

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