"Olha, Raquel, desde que nasceu o euro correu tudo mal a Portugal", sublinhou o historiador. "O crescimento económico abrandou, o desemprego disparou, a dívida ficou descontrolada, a competitividade caiu. O euro até pode não ter culpa, mas o facto é que não nos protegeu." Levantou o dedo, como se tivesse algo mais a dizer.
"Além disso, os modelos desenvolvidos pelos economistas mostram que 364
Portugal teria crescido pelo menos mais meio ponto em média anual do que cresceu no período de 1999 a 2009 se estivesse fora do euro, e estaria em convergência com o resto da Europa. Teria, é certo, sido mais abalado pela crise financeira, tal como aconteceu com a Islândia e os países bálticos, mas a recuperação também teria sido muito mais rápida." Afastou os braços e todo o seu corpo pareceu formar uni grande ponto de interrogação. "O que ganhámos nós afinal com a moeda única? Será que alguém me pode explicar?"
A espanhola parecia pensativa, tentando enumerar as vantagens.
"Bem... podemos viajar sem trocar dinheiro, o que é bem agradável. Há também a credibilidade da moeda a considerar. O
euro é muito mais credível do que a peseta ou o escudo."
"É verdade. Mas não achas que isso é pouco, sobretudo quando comparado com os inconvenientes?"
Raquel mordeu o lábio inferior.
"Talvez", admitiu. "De qualquer forma, apenas falaste no caso português. A situação é com certeza diferente nos outros países da zona euro..."
"O caso português, e ao contrário do que pensas, é típico. Onde eu disse 'Portugal' podes ouvir, com diferentes nuances, o nome de qualquer país do Club Med. É certo que a Espanha registou neste período um crescimento interessante, mas isso nada teve a ver com um aumento da produtividade. O crescimento espanhol foi essencialmente sustentado pela dívida contraída para alimentar a colossal bolha do imobiliário e os gastos nas regiões. Uma vez interrompido o fluxo de dinheiro do estrangeiro, a bolha rebentou, os bancos e os orçamentos regionais entraram em colapso e a economia espanhola precipitou-se na crise. Da Grécia nem vale a pena falar, toda a gente já percebeu o desgoverno do país. O governo grego usou o dinheiro que vinha do exterior para contratar pessoas para trabalhos inexistentes. Derreteram assim o dinheiro." Mudou de 365
posição no assento. "Há, porém, um caso interessante. A Irlanda."
"Esse não é do Club Med..."
"Pois não, mas é um país periférico e tem uma história ilustrativa. Quando o governo irlandês cortou os impostos das empresas para doze e meio por cento, a economia disparou. Todos queriam investir na Irlanda! Em 1993, ano em que o imposto foi reduzido, o crescimento económico do país estava nos dois e meio por cento. Em 1997, apenas quatro anos depois, tinha cavalgado para cima dos dez por cento."
"Joder!", pasmou-se Raquel. "A sério?"
"A Irlanda entrou no euro em velocidade de cruzeiro, as finanças públicas em ordem e a inflação controlada. O euro, no entanto, trouxe-lhe taxas de juro muito baixas, que alimentaram uma gigantesca bolha do imobiliário. Em resultado disso, a dívida total do país relativamente ao PIB mais do que duplicou de 2001 a 2008.
Para que percebas melhor o que aconteceu, basta veres que, em cada oito euros que circulavam no país, a Irlanda tinha criado apenas um e pedido emprestados os restantes sete. Quando os bancos alemães deixaram de emprestar dinheiro, foi o caos neste país que até ao nascimento da moeda única ia tão bem." Cruzou os braços, como se desse por terminada a sua argumentação. "Conclusão, o euro revelou-se uma catástrofe total para os Irlandeses..."
"De certeza que a culpa foi do euro?"
"A coincidência temporal entre o nascimento da moeda única e o declínio das economias europeias é perturbadora", disse o historiador.
"Claro que a entrada da China na economia global é o principal responsável por grande parte destes problemas, juntamente com o crédito barato, mas tenho uma certa dificuldade em isentar o euro de responsabilidades."
Raquel manteve os olhos cravados nele; queria uma resposta final à sua preocupação central e não a obtivera ainda.
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"Muito bem", disse. "Mas, se o euro sobreviver, afinal vamos ou não sair dele?"
A insistência implacável da espanhola arrancou uni sorriso divertido a Tomás.