"Dos Alemães? Estás doido? Ganhamos mais que os Alemães?"
"Por incrível que pareça, o custo dos salários em Portugal, Espanha, Irlanda, Grécia, Itália e França, na relação com o PIB de cada um destes países, era no início da crise dez a trinta por cento superior ao custo dos salários na Alemanha. As nossas economias não aguentam isso. Temos, pois, de escolher entre salários baixos e desemprego. Os salários baixos são, receio bem, o mal menor."
Raquel fez um ar atrapalhado.
"Bem... tem de haver outra maneira."
"Não controlando nós a nossa moeda e querendo evitar o default, receio bem que não haja outra forma. A desvalorização da moeda seria o instrumento mais fácil, porque baixaria os salários de forma indirecta e camuflada, mas no euro ela não é possível.
Portanto, temos de cortar directamente salários, subsídios e pensões.
Não só reduzimos assim a nossa despesa como retiramos poder de compra às pessoas, o que faz diminuir as importações."
"E as nossas empresas?", questionou ela. "Se não vendem a ninguém, como sobreviverão?"
"É terrível, eu sei. Mas o euro não nos deixa alternativa. Temos infelizmente de cortar nos salários para que os nossos produtos tenham um preço mais competitivo e para reduzir o poder de compra dos consumidores de modo a diminuir as importações. O problema é que isso afecta negativamente a produção nacional. As nossas empresas terão de se adaptar a essa realidade e procurar clientes no mercado externo a preços competitivos. Se o fizerem, aumentamos as exportações e começa a entrar dinheiro nos nossos países."
Raquel ponderou durante alguns segundos o que acabara de 352
escutar.
"Se assim é", concluiu com uma voz arrastada, "parece-me melhor estarmos fora do euro."
"Estar fora do euro facilita o combate ao desequilíbrio, porque se pode desvalorizar a moeda, estar dentro dificulta."
A espanhola, contudo, não estava inteiramente convencida; afinal afeiçoara-se ao euro e de certo modo a moeda única fazia-a sentir-se mais segura e protegida. Porquê pô-la em causa à primeira dificuldade?
Voltou por isso à carga.
"Isto não pode ser visto só assim, não achas?", exclamou. "No fim de contas, o euro tem outras vantagens, não tem? Elas podem compensar largamente este inconveniente..."
"Com certeza", concordou Tomás. "Todas as moedas têm duas faces. Até o euro."
"Pois é, pois é", entusiasmou-se a espanhola. "O euro ajuda os nossos países a crescerem economicamente, por exemplo. Isso é muito importante, não te parece?"
"Muito importante", voltou o historiador a assentir.
"Terrivelmente importante, sem dúvida". Fez uma pausa intencional.
"Se fosse verdadeiro, claro..."
Raquel arregalou os olhos, apanhada de surpresa por esta ressalva inesperada.
"O quê?", espantou-se. "Não é verdadeiro?"
Quando ia a responder, Tomás foi interrompido por um longo e profundo bocejo que lhe subiu das entranhas e lhe pesou imediatamente nas pálpebras. Espreitou o relógio e quase se assustou quando verificou a posição dos ponteiros.
"Ena, já são duas da manhã!", constatou. "É tardíssimo! Vamos mas é dormir."
Raquel olhou-o com um esgar escandalizado.
"Dormir?", protestou com o dedo ameaçador bem levantado. "Tu 353
não te atrevas, Tomás Noronha! Ouviste? Primeiro tens de me responder à pergunta! O euro ajuda ou não as nossas economias?"
Ignorando a pergunta formulada em tom de reclamação, o português estendeu-se no seu lugar, encostou a cabeça à janela e, apesar do desconforto da posição, cerrou as pálpebras.
"Falamos amanhã", sentenciou com um novo bocejo, como se dessa forma mostrasse que não estava em condições de prosseguir a conversa.
"Agora, nhó-nhó."
A espanhola ainda abriu a boca para protestar, mas paralisou o movimento quando pousou o olhar no seu companheiro de viagem.
Tomás dormia já a sono solto com um semblante tão sereno que lhe apeteceu dar-lhe um beijo.
Parecia um bebé.
354
LIII
Através das cortinas da janela do hotel, situado mesmo por cima da Ponte de Santa Trinitá, Magus apreciava a Ponte Vecchio em todo o seu esplendor; tratava-se da mais antiga das estruturas florentinas sobre o Amo, os pilares e as arcadas devidamente iluminadas na noite, uma maravilha em forma de arquitectura medieval. Um rio de gente fluía pelas ruas da cidade, mas a alma do Amo parecia concentrar-se naquela ponte do século XIV carregada de antiquários e joalheiros como se de uma mera rua de comércio se tratasse.
Alguém bateu à porta do quarto.
"Que raio...?"
Magus consultou o relógio; era uma da manhã, não lhe parecia hora para ser incomodado.
"Quer que vá abrir, signore?"