"Mantenhamo-nos no exemplo de Portugal, embora tudo o que vou dizer seja válido para qualquer outro país", propôs. "A decisão de sair do euro é de tal modo sensível que não me parece possível mantê-la em segredo. Por isso, no dia em que for tomada terá de se proibir de imediato o levantamento de dinheiro nos bancos e as transacções financeiras, exceptuando pequenos valores para garantir a vida no dia-

-a-dia. Isto porque toda a gente perceberá que o escudo será desvalorizado e por isso as pessoas tentarão levantar os euros ou transferi-los para o estrangeiro, o que provocaria a fuga de capitais e a consequente falência em cadeia dos bancos. Isso não pode ser permitido.

Daí que, durante o tempo que levar a impressão de escudos, as transacções tenham de ser reduzidas ao mínimo."

"Será uma confusão."

"Com certeza, mas o pior não é isso", disse o historiador. "O

novo escudo sofrerá uma desvalorização de pelo menos cinquenta por cento, o que significa que as pessoas passam, de um dia para o outro, a ter metade do dinheiro que tinham. Os seus salários, as suas pensões, as suas poupanças... tudo isso passa a valer metade. Isto implica um colapso súbito do nível de vida. Em apenas vinte e quatro horas, tudo o que é importado duplica de preço: comida, roupa, medicamentos, combustíveis... tudo. Haverá por isso uma corrida aos supermercados, às lojas, às farmácias e às bombas de gasolina. É

possível até que ocorram tumultos e saques e que o exército tenha de intervir para proteger estabelecimentos comerciais e bancos."

"Dios mio!", exclamou Raquel, levando a mão à boca. "Não sei se 373

quero que a Espanha saia do euro..."

"As consequências imediatas serão duras", insistiu Tomás.

"Ninguém deve ter ilusões quanto a isso. E de um ponto de vista macroeconómico há ainda a considerar o problema das dívidas.

Mantenhamos Portugal como exemplo. O meu país contraiu a sua dívida em euros, pelo que terá de a pagar em euros. Acontece que, saindo do euro, o estado passa a cobrar os impostos em escudos, o que implica um colapso das receitas fiscais. Os efeitos são igualmente devastadores na dívida privada. A desvalorização do escudo implica que a dívida das famílias duplica de um dia para o outro. No dia 1 uma família deve duzentos mil euros ao banco, no dia 2 já deve oitenta mil contos, o equivalente hoje a quatrocentos mil euros. Isto é uma catástrofe! As pessoas, que já pagam com dificuldade as suas dívidas aos bancos, entrarão imediatamente em default, isto é, deixam de pagar o que devem. Como toda a gente entra em default ao mesmo tempo, os bancos ficam sem dinheiro e abrem falência. O país paralisa."

"Há uma maneira de dar a volta a isso", considerou a espanhola. "Se os euros passam a escudos, a dívida passa a escudos e ela própria acompanha a desvalorização dos escudos. Assim as pessoas mantêm o mesmo valor da dívida, só que em escudos."

"A escudização das dívidas é uma hipótese. O problema é que as dívidas dos bancos portugueses ao exterior continuam em euros, mas as receitas e os depósitos entram em escudos desvalorizados. Nestas condições, os bancos não conseguem pagar o que devem ao exterior e abrem falência. O país também paralisa."

Raquel pestanejou, desconcertada com os dois cenários. "Sendo assim, o resultado é sempre o mesmo!..."

"É por isso que se chama uma catástrofe."

A espanhola abriu os braços num gesto impotente e, desconcertada, sacudiu a cabeça.

"Quer dizer, isto é o cúmulo! Não podemos permanecer no euro nem 374

podemos sair! Estamos enfiados num verdadeiro colete-de-forças! Como fazemos então?"

Tomás passou as mãos pela franja.

"É simples", sorriu. "Cortamos o cabelo."

O despropósito da observação extraiu de Raquel um esgar de estranheza.

"Não digas tonterías, repreendeu-o. "A sério, como saímos desta embrulhada?"

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