"Certamente, meritíssimo", acedeu a procuradora-chefe, tocando no braço do recém-chegado. "O professor Tomás Noronha possui um doutoramento em História e, além da docência universitária em Lisboa, tem estado envolvido em diversas peritagens em todo o mundo ao serviço de várias instituições, incluindo a Fundação Gulbenkian e o Museu Arqueológico de Atenas."
"Um doutoramento em que área, professora Chalnot? História 408
Económica?"
A procuradora-chefe consultou uma cábula que segurava na mão.
"Línguas Antigas, meritíssimo."
O juiz Seth alçou a sobrancelha esquerda, uma objecção a ganhar forma na sua mente.
"Que eu saiba essa matéria está totalmente fora do âmbito do processo que temos em mãos", constatou. "Não sei se posso aceitar esse depoimento."
"Com certeza que pode, meritíssimo", devolveu a procuradora-chefe com firmeza. "Pode e, se me permite o atrevimento, deve." Espreitou de novo a cábula. "Nos termos da lei que enquadra o funcionamento do Tribunal Penal Internacional, cláusula sétima, alínea três, o acusador tem liberdade e plenos poderes para contratar os investigadores que entender, desde que respeite o orçamento que lhe está atribuído. Quer que lhe recorde o texto ipsis verbis?"
"Não é preciso, obrigado", foi a resposta. "O professor Noronha é um investigador contratado por si?"
"A partir deste momento é, meritíssimo."
O juiz respirou fundo, ultrapassando a objecção. "Nesse caso, pode prosseguir."
A procuradora-chefe desviou o olhar para o seu novo colaborador, passando-lhe implicitamente a palavra. Tomás olhou para ela, depois para o juiz e engoliu em seco.
Chegara a hora de mostrar o que valia.
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LXI
O café servido ao balcão da cafetaria da estação era intragável, mas Balam sabia que não dispunha de alternativa. Resignado, engoliu um trago; até sentiu a pele eriçar-se de desagrado. O que realmente o irritava, porém, não era o café. Havia já cinco horas que estava de plantão com os seus homens a vigiar a chegada dos comboios a Santa Maria Novella e não vislumbrara ainda sinais dos alvos. Começava a duvidar que viessem por ali, mas via-se forçado a permanecer no local porque as suas ordens eram manter a vigilância até às dez da noite.
"Que pincel...", resmungou, espreitando o relógio pela enésima vez. "Isto nunca mais acaba."
Nesse momento o telemóvel tocou. Tirou o aparelho minúsculo do bolso das calças e espreitou o visor; era uni dos seus correligionários que lhe ligava.
"O que é, Gãap?", foi a primeira coisa que disparou logo que atendeu, visivelmente maldisposto. "Estou ocupado e com pouca paciência para te aturar. Passa-se alguma coisa?"
"Passa-se, sim senhor!", devolveu a voz do outro lado da linha, claramente nervosa. "Tens de vir aqui!" "Aqui, onde?"
"Ao Palazzo Vecchio. Imediatamente!"
Balam suspirou.
"Isso queria eu", bufou. "Mas o chefe mandou-me ficar de plantão em Santa Maria Novella para..."
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"O tipo está aqui!"
"Quem, o chefe?"
"O Noronha, idiota!", disparou Gãap. "O Noronha está aqui no Palazzo Vecchio!"
A informação atingiu Balam como um murro no estômago; era de tal modo inesperada que durante instantes ainda pensou que tinha ouvido mal.
"O quê?"
"É como te digo. Vem imediatamente!"
O chefe da segurança, plantado na cafetaria da estação, ficou momentaneamente atordoado, sem saber o que pensar ou fazer, a informação a ricochetear-lhe na mente como uni eco que se recusava a morrer, uma perna a fazer que partia, a outra a manter-se firme no sítio onde se encontrava; parecia um boneco articulado prestes a desconjuntar-se.
"Mas... mas... como é isso possível?" Sacudiu a cabeça, tentando reordenar os pensamentos. "Olha lá, onde está ele? entrada? Na plateia? Ao pé de ti?"
"O gajo está neste momento ao lado da procuradora", retorquiu Gãap com a voz a transmitir urgência. "Vai começar a depor e ninguém sabe o que irá sair dali. Isto é uma catástrofe, Balam! Uma catástrofe!"
"O tipo vai depor?!"
"Está a começar agora e achei que te devia avisar", foi a resposta. "O
chefe ainda te vai arrancar a pele, ouviste? Põe-te aqui o mais depressa possível! Temos de o apanhar à saída!"
Ainda siderado, mas consciente de que tinha de actuar e resolver o assunto se não queria acabar com uma corda a asfixiá-lo, como acontecera com Decarabia, Balam desligou o telemóvel e de imediato tirou o walkie-talkie do bolso. Aproximou-o da boca e premiu os três botões ao mesmo tempo.
"Águia para Condores 1, 2 e 3", chamou. "Operação terminada. O
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pombinho está no Palazzo Vecchio. Encontro dentro de um minuto no átrio da estação. Quer."
Não havia tempo a perder.
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LXII