A vontade de Tomás era falar para o público, hábito velho de professor viciado nos grandes auditórios, mas tinha a noção de que, para efeitos formais, o seu destinatário não eram as pessoas que enchiam o grande salão do Palazzo Vecchio, mas o juiz. Ajeitou o casaco, consciente de que se encontrava demasiado amarrotado após as sucessivas e atribuladas viagens que fizera nas últimas quarenta e oiro horas, e pigarreou.

"O meu nome é Tomás Noronha e sou historiador em Lisboa", apresentou-se. "Tenho um amigo de infância chamado Filipe Madureira que, sei-o agora, foi contratado pela digníssima procuradora-chefe do Tribunal Penal Internacional para integrar a equipa de investigação do processo de crimes contra a humanidade relativos à crise. Acontece que, enquanto desenvolvia o seu trabalho, o meu amigo Filipe cruzou-se com dois técnicos franceses que tinham sido contratados há uns anos pelo antigo presidente da Comissão Europeia para investigar suspeitas de fugas de informação dentro da própria Comissão. A contratação desses técnicos tinha sido feita em segredo, de modo a não alertar os responsáveis pelas fugas de informação, e a ambos foi dada carta branca para interceptarem todas as comunicações no interior do edifício da Comissão, em Bruxelas, e todas as comunicações do interior do mesmo edifício para o exterior, incluindo e-mails e telefonemas. Como o anterior presidente da Comissão Europeia era 413

português, grande parte do trabalho dos dois técnicos incidiu nos gabinetes portugueses, onde eram maiores as suspeitas de fuga de informação, embora as intercepções tivessem também abrangido outros serviços existentes nas instalações."

O juiz Seth remexeu-se no lugar, incomodado com o que escutava.

"Essas intercepções foram autorizadas por algum juiz?" Tomás ainda abriu a boca para responder, mas a procuradora-chefe antecipou-se.

"Sim, meritíssimo", apressou-se ela a dizer, acenando com uma folha.

"Está aqui a ordem assinada pelo juiz Joossens." "Deixe-me ver."

"Com certeza, meritíssimo."

A professora Chalnot aproximou-se da mesa do juiz e estendeu-lhe o documento. Axel Seth pôs os óculos de leitura e estudou-o atentamente antes de o devolver.

"Parece estar tudo regular", constatou, voltando a tirar os óculos.

Desviou o olhar para Tomás. "Prossiga, professor Noronha."

"As escutas e intercepções levadas a cabo pelos dois técnicos franceses na sede da Comissão Europeia em Bruxelas duraram alguns anos e só terminaram quando eles identificaram enfim a fonte da fuga de informação", disse o historiador, retomando o raciocínio. "Todo o material recolhido foi levado para a empresa dos dois técnicos para ser tratado no âmbito do processo judicial instaurado para processar criminalmente o funcionário responsável por essas fugas. Acontece que, por essa altura, a crise desencadeada pelo colapso do Lehman Brothers começou a estender-se à Europa através do problema das dívidas soberanas. Enquanto reviam o material que tinham gravado, os dois técnicos aperceberam-se de que algumas das conversas interceptadas tinham relevância para o apuramento de responsabilidades sobre o que estava a acontecer."

"Esse apuramento de responsabilidades já foi feito pelo procurador Del Ponte", observou o juiz Seth. "Isso que me está a descrever parece-me redundante."

"Receio que não seja bem assim, meritíssimo", corrigiu Tomás, 414

fazendo um gesto a indicar Carlo del Ponte. "O senhor procurador apurou responsabilidades e indiciou suspeitos ligados ao colapso da bolha do imobiliário e da banca americana em 2008. Acontece que a crise, como o meritíssimo bem sabe, não se limitou à América. A Europa foi profundamente abalada, começando pelo Leste, pelos países bálticos e pela Islândia e acabando na própria zona euro. Por muitas culpas que tenham, e têm, os senhores Obama, Bush, Greenspan, Summers e companhia não são responsáveis pelos problemas europeus. A crise na Europa foi criada na própria Europa."

"Lamento", corrigiu o juiz, "mas toda a gente sabe que foi o colapso de 2008 nos Estados Unidos que provocou a crise europeia."

Apesar da insistência de Axel Seth, o português manteve-se firme na sua posição.

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