"O colapso de 2008, meritíssimo, apenas apressou uma crise que já estava em gestação na Europa devido à transferência da produção para a Ásia, aos erros na arquitectura do euro e à má governação em vários países. Se não fosse a falência do Lehman Brothers, seria outra coisa qualquer a gerar a crise europeia. Admito que, sem a crise americana, a crise das dívidas soberanas na Europa só viria a ocorrer mais tarde, mas que ninguém duvide que essa ocorrência era inevitável porque a zona euro sofria de desequilíbrios estruturais que não eram sustentáveis e porque a produção de bens se transferiu do Ocidente para a Ásia. Ora, e como todos sabemos, o que não é sustentável não se sustentará. O colapso de 2008 foi o abalo que fez desmoronar mais cedo o baralho de cartas do euro e da economia ocidental."

O juiz fez uni gesto impaciente com a mão.

"Está bem, está bem", concedeu, sem vontade de se embrenhar numa discussão. "Prossiga."

O historiador teve de se concentrar para retomar o fio condutor da sua exposição.

"Pois, dizia eu que..." Fez uni esforço de memória. "Enfim, os dois 415

técnicos franceses contactaram um responsável para lhe comunicar o teor do material que tinham recolhido. Parece, no entanto, que o contacto não correu bem e os técnicos sentiram-se ameaçados e puseram-se em fuga."

"Ameaçados?", estranhou o juiz. "Ameaçados por quem?"

"Pelos vistos o responsável por eles contactado não era inteiramente alheio às actividades ilegais que constavam das escutas, se é que me faço entender."

"Quem era esse responsável?"

"Infelizmente ignoro-o, meritíssimo. Apenas sei, com base em documentos que me foram entregues pelo meu amigo Filipe Madureira, que os dois técnicos foram de algum modo informados de que o Filipe estava encarregado pela senhora procuradora-chefe do Tribunal Penal Internacional de investigar a crise e, em desespero de causa, entraram em contacto com ele. Entregaram-lhe o DVD e depois desapareceram. Uma semana mais tarde os seus corpos foram encontrados num apartamento em Nice."

O juiz arregalou os olhos.

" E s t á a i n s i n u a r q u e f o r a m . . . a s s a s s i n a d o s ? " "Torturados e assassinados, sim. É o que está escrito no relatório da autópsia."

A procuradora Chalnot acenou com uni papel.

"Está aqui o relatório, meritíssimo! Vou juntá-lo aos autos." "Muito bem", concedeu Axel Seth, mantendo a atenção concentrada em Tomás. "E o seu amigo?"

"Pouco depois da morte dos dois técnicos franceses, o Filipe começou a ser perseguido e viu as suas contas bancárias bloqueadas.

Entrou em pânico e, percebendo que o DVD mexia com interesses ao mais alto nível, cortou os contactos com toda a gente." Indicou a procuradora-chefe do Tribunal Penal Internacional. "Até com a professora Chalnot. Pura e simplesmente, não sabia em quem confiar. Apesar de ter ficado sem meios para se sustentar, arranjou maneira de partir para 416

Portugal, o seu país de origem, e contactar as duas únicas pessoas em quem confiava, uma agente espanhola da Interpol e eu."

"Onde está o senhor Madureira?"

"Infelizmente, foi abatido. Um atirador baleou-o em Lisboa." O juiz Seth abriu e fechou a boca, uma expressão incrédula a bailar-lhe nos olhos.

"Outro homicídio?", admirou-se, quase escandalizado. "Isto já me está a parecer Hollywood a mais! Tem a certeza do que está a dizer?"

"Ele pelo menos perdeu a consciência nos meus braços", confirmou Tomás. "A informação oficial da polícia portuguesa é que o Filipe morreu. Contudo, ontem recebi um e-mail dele a dizer-me que tinha escapado e que está internado no hospital."

Axel Seth revirou os olhos, contrariado.

"Mau, mau!", exclamou com um certo ar de enfado. "Tudo isto está demasiado confuso para o meu gosto. Afinal morreu ou não?"

Fez uma pausa, como se aguardasse resposta, mas como nenhuma foi dada prosseguiu. "E esse DVD? Onde está ele? O senhor tem-no consigo?"

"Não. O Filipe nunca mo entregou."

O juiz enrubesceu e virou a sua atenção para a procuradora-chefe do Tribunal Penal Internacional.

"Professora Chalnot, tudo isto me parece suspeito e duvidoso.

Este seu colaborador vem para aqui com uma história do faroeste e pelos vistos não tem nenhum documento na sua posse que a consubstancie, nem o tal DVD onde supostamente se encontram gravações comprometedoras. Pior ainda, veio para aqui contar a história de um morto que agora lhe envia e-mails do Além. A senhora procuradora-chefe estará por acaso a fazer pouco de mim? Este processo é demasiado importante para andarmos aqui com brincadeiras!"

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