Ignorando o sarcasmo, Raquel apontou para as duas últimas palavras da frase.

"No entanto, o Filipe é aqui muito claro quando diz que procure sobre o túmulo de Satanás. Se calhar é melhor espreitarmos outros pontos da basílica, não achas?"

O historiador fez um gesto largo, abarcando todos os túmulos que se encontravam incrustados nas duas paredes de Santa Croce.

"A referência a Satanás na mensagem do Filipe tem de ser lida de forma simbólica, como é evidente", estabeleceu. "Isso significa que o túmulo de Satanás é um dos que aqui estão, não tenhas dúvidas quanto a isso."

Hesitou, contemplando as placas a identificar cada figura. "A questão é saber qual."

Os olhares dos dois visitantes passearam entre os vários túmulos, tentando arrancar o segredo que um deles escondia. Galilcu, Alberti, Alfieri, Miguel Ângelo, Dante, Da Vinci, Machiavelli, Marconi, Fermi, Rossini, Morghen, Gentile, Barsanti,

"Ay, madre mia", suspirou Raquel, indecisa. "Como vou eu adivinhar 435

qual deles é Satanás?"

"Não estamos a falar de alguém que se chame Satanás", insistiu Tomás. "Basta um indício, uma obra que alguém tenha feito e que estabeleça uma qualquer ligação com o Diabo..."

"Mas o quê?"

"Sei lá", retorquiu o historiador. "Algum destes homens escreveu alguma coisa sobre Satanás ou fez uma pintura sobre o Inferno ou um poema a propósito de qualquer coisa do género?"

O olhar da espanhola percorreu de novo os nomes nas paredes da basílica. Galileu, Alberti, Alfieri, Miguel Ângelo, Dante...

Abriu a boca, presa a este último nome.

"Dante!", exclamou, o olhar incendiado pela epifania. "Dante Alighieri!"

Com uma expressão pensativa, Tomás mordeu o lábio inferior como se ponderasse a ideia.

"Dante? Por causa da Divina Comédia?"

A agente da Interpol agarrou-o pelos ombros e obrigou-o a voltar-se para o sepulcro do grande escritor.

"Sim, Dante!", exclamou, alterada. "Dante! O Inferno de Dante!"

Fez um gesto impetuoso a indicar o túmulo do famoso florentino.

"Dante é a resposta!" Colou-lhe o bloco de notas à cara. "Vai a Santa Croce e procura sobre o túmulo de Satanás, escreveu Filipe. Dante, o autor de A Divina Comédia e o criador do Inferno dos Infernos, é Satanás! Coño!, não é evidente?"

Sem perder tempo, a espanhola acercou-se do túmulo de Dante Alighieri e estudou-o. Era uma estrutura pesada, enquadrada por três estátuas, uma delas inclinada sobre o túmulo. Uma inscrição na base indicava Danti Aligherio.

"Não ouviste o que o monge franciscano disse?", perguntou Tomás.

"O túmulo de Dante, tal como os de Marconi e Fermi, estão vazios."

"E então?!", questionou ela. "Isso só reforça a minha ideia, aliás.

436

Foi justamente por este túmulo estar vazio que Filipe o escolheu! Temos de abrir o túmulo de Dante! As ossadas dele não se encontram lá, mas o material que procuramos sim!"

Sem perder tempo, Raquel encavalitou-se sobre o túmulo e fez força para erguer a tampa de mármore, mas o português travou-a e puxou-a para baixo.

"Enlouqueceste?", perguntou num tom de repreensão. "O que diabo estás a tentar fazer?"

"A abrir o túmulo, ora essa!"

O historiador lançou um olhar em redor, para se certificar de que ninguém os estava a observar; os seus receios, porém, confirmaram-se, pois viu um monge encaminhar-se para eles com ar furioso.

"O que andam vocês aí a magicar?", questionou o monge. "Desça já daí, minha senhora!"

Apanhados em flagrante, Tomás e Raquel ficaram por momentos paralisados. O português foi o primeiro a reagir; recompôs-se de imediato e assumiu um ar doutoral.

"Somos da equipa de restauro", disse com voz surpreen-dentemente firme. "Viemos de Pisa."

O monge hesitou, desconcertado. .

"Ah! Mas... vocês não vinham restaurar o Giotto?"

"Claro que sim. Só que estamos também a fazer uma inspecção aos mausoléus. Se houver aqui algum problema, faremos o restauro sem encarecer o trabalho. Tudo incluído. Sabe como é, o patrão é muito católico e tem muito gosto em ser útil à nossa santa Igreja."

O franciscano esfregou as mãos, o semblante passando sucessivamente da cólera para a surpresa e depois para a satisfação.

"Ah, muito bem, muito bem!", condescendeu, desenhando uma cruz no ar diante de Tomás. "Que Deus vos abençoe, a vós e ao vosso patrão." Inclinou-se, muito atencioso. "Precisam de alguma coisa?"

437

"Apenas de tranquilidade."

"Com certeza! Em caso de necessidade, chamem-me. Estou ali junto ao altar."

O monge virou costas e afastou-se, lançando olhares para trás. Os dois visitantes, conscientes de que estavam a ser vigiados, assumiram uma postura aparentemente profissional, como se inspeccionassem o estado do mármore do mausoléu de Dante.

Перейти на страницу:

Похожие книги