Como falar sobre a crise e as suas causas sem ser catalogado como "esquerdista irresponsável" ou "neoliberal radical"? Como fazê-lo sem ser arrastado para o debate ideológico, político e até partidário que o colapso financeiro e económico radicalizou? Talvez não seja possível. Falar sobre economia implica necessariamente uma certa visão do mundo. Haverá forma de escapar a essa armadilha ideológica e mesmo assim abordar o problema nas suas vertentes essenciais?

No seu romance I Married a Communist, Philip Roth de certo modo resolveu o dilema quando pôs um personagem a reflectir sobre a diferença entre o comunismo e o capitalismo. "Tudo o que os comunistas dizem sobre o capitalismo é verdadeiro", disse ele mais ou menos assim, em conversa com Nathan Zuckerman, o alter ego de Roth. "E tudo o que 526

os capitalistas dizem sobre o comunismo é também verdadeiro. A diferença, rapaz, é que os comunistas se baseiam no conto de fadas de que somos todos iguais e criam um estado policial para impor à força essa visão, enquanto o capitalismo se baseia em leis da natureza que, bem ou mal, existem de facto."

O mesmo, parece-me, se pode dizer sobre esta crise. O que a esquerda defende é verdadeiro, o que a direita afirma também. E ambas desvalorizam o que não lhes convém, embora igualmente verdadeiro. É

verdade que a experiência mostra que os mercados não podem ser deixados à solta e que, como estabeleceu Marx, o capitalismo encerra em si contradições que conduzem à sua própria destruição; e é verdade que, maior do que a dívida pública, é a dívida privada contraída pelas famílias e pelas empresas com a cumplicidade gananciosa dos bancos.

Mas também é verdade que o sonho do estado social se está a desmoronar perante o colapso do crescimento demográfico e a estagnação económica nos países industrializados e que não é possível sustentá-lo sem criar mais riqueza do que aquela que está a ser produzida; e é verdadeiro que as nossas economias enfrentam uma séria crise de competitividade perante os produtos oriundos das economias emergentes onde se praticam salários miseráveis, o que nos põe perante um dilema terrível: ou aceitamos que nos baixem os salários para que os bens que produzimos tenham preços competitivos, ou vamos para o desemprego porque as nossas empresas não conseguem sobreviver perante uma concorrência com preços tão agressivamente baixos.

Igualmente verdadeiro, existe um problema sério na forma como as nossas democracias estão a funcionar. Os políticos não buscam a resolução dos problemas, mas a sua eleição. Isto é válido para todos os políticos. Todos.

O que levanta interrogações naturais sobre a maneira como governam e como financiam as campanhas para as suas eleições. Por que razão se constrói uma determinada auto-estrada? Porque ela é realmente necessária ou porque uma construtora civil deu determinada quantia para a campanha 527

eleitoral de um partido e o político tem de retribuir o favor com o dinheiro dos contribuintes? E quando a Alemanha ou a França financiam um projecto em Portugal ou na Grécia fazem-no realmente para ajudar os Portugueses e os Gregos ou para ajudar as suas próprias empresas, num esquema de subsídio indirecto e disfarçado de ajuda? Todos dizem que a primeira opção é a resposta, todos intuímos que a segunda é que é verdadeira.

A Mão do Diabo apresenta uma avaliação das economias feita com base nas opiniões de economistas eminentes. Nada é minha opinião, tudo o que está escrito resulta do diagnóstico feito por profissionais. O livro inclui por isso informação económica e financeira genuína. De resto, trata-se quase sempre de informação pública. Contudo, o último segmento do romance, aquele em que se conhece o teor do DVD, apresenta-nos informação que não é necessariamente pública. Mas é, no seu espírito, verdadeira, embora devidamente mascarada pelas roupagens da "ficção".

Trata-se de informação que me foi fornecida ao longo do tempo, mas que, para os efeitos deste livro, não passa de informação "ficcional". Este livro é um romance, isso é "ficção".

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