descontrolavam e perdiam numa sinfonia de vagidos ofegantes, espada a penetrar em carne, pedra áspera na almofada de seda, gelo no fogo, uma dança de ritmo crescente, primeiro devagar, a fruir o toque, a saborear a lenta doçura do instante, depois a ganhar velocidade à medida que o corpo pedia mais e mais, como uma locomotiva a acelerar, a bigorna a bater em ferro em brasa, o...

"Não!", disse ele de repente. "Não!"

Saiu dela e rolou para o lado.

Raquel abriu os olhos, apanhada de surpresa com a interrupção, na verdade sem entender o que sucedera.

"Qué pasa?", perguntou, alarmada e atarantada. "Que aconteceu?

Porque paraste?"

De pálpebras cerradas, o português abanou a cabeça.

"Não."

Ela apoiou o cotovelo na cama e ergueu-se, observando-o para ver se estava tudo bem.

"Não, o quê?"

Tomás respirou fundo e abanou a cabeça.

"Desculpa, mas não posso", titubeou. "Não posso, não posso."

"Porquê? O que se passa?"

O português ergueu o braço e indicou a porta do quarto. "Tu não tens culpa, não é nada contigo, mas... preciso de ficar sozinho."

A espanhola abriu a boca, sem saber o que pensar. "Estás a mandar-me embora?"

"Sim, por favor", confirmou ele, sem vontade de se explicar.

"Desculpa, mas não posso. Preciso de ficar só."

Raquel saltou da cama e vestiu o roupão com gestos bruscos, a fúria a crescer-lhe no corpo e a indignação a enrubescer-lhe a face.

"Cabrón de mierda", resmungou entre dentes, "hijo de puta, coro de maricón!"

Sem olhar para trás, saiu do quarto como um furacão e bateu a 517

porta com violência. Enfim sozinho, Tomás enroscou-se na cama e puxou o lençol, ele próprio sem compreender o que fizera e porque o fizera. A única coisa que sabia é que, enquanto amava e beijava e penetrava aquela mulher que tão inesperadamente rejeitara, um rosto se lhe impusera com tal força que fora incapaz de prosseguir, uma cara materializara-se-lhe diante dos olhos, travara-lhe o corpo e obrigara-o a parar.

Maria Flor.

518

Epílogo

O céu escurecia já sobre os pinheiros e o clarão crepuscular do Sol tornara-se um hálito arroxeado no horizonte quando a pacatez na praceta foi quebrada pelo guinchar da travagem repentina de um automóvel. O

Volkswagen azul estacionou com grande fragor diante da vivenda no meio do pinhal, o motor traseiro a estalar de fadiga depois da corrida louca de Lisboa até Coimbra, e o silêncio só voltou quando a viatura foi desligada. Ouviu-se uma porta a abrir e o condutor saltou para o passeio e, apressado, correu a tocar à campainha da moradia.

Soaram passos no interior do edifício e uma mulher de bata e touca branca abriu a porta do Lugar do Repouso e olhou para o exterior.

"A minha mãe?"

A pergunta de Tomás foi atirada de chofre, com ansiedade e impaciência, sem sequer uma saudação preliminar.

"Boa tarde, professor Noronha", devolveu ela com um sorriso profissional. "Veio ver a dona Graça?"

"Onde a puseram?"

A empregada deu um passo para o lado, convidando-o a entrar.

"Faça o favor", disse. "Está lá em cima, no quarto dela. Faça o favor de subir."

Sem se preocupar com cerimónias, Tomás franqueou a entrada e 519

trepou as escadas em grande velocidade, saltando de três em três degraus, e só abrandou diante do quarto da mãe. Tocou de mansinho, quase com medo que ninguém respondesse, e sentiu um alívio profundo quando ouviu do interior uma voz familiar.

"Quem é?"

"Sou eu, mãe. Posso entrar?"

"Tomás? Entra, filho, entra."

Abriu a porta e viu a mãe sentada num sofá a ler uma revista social preenchida de imagens de pessoas a posar com sorrisos artificiais.

"Tudo bem, mãe?"

"Claro que está tudo bem, Tomás", devolveu ela, estranhando a aflição que lhe surpreendia no rosto. "Porque não haveria de estar?"

O filho ficou desconcertado.

"Eles não... quer dizer, a mãe não... não teve de sair daqui?"

"Sair daqui? Para onde?"

Era uma boa pergunta. Tomás entrou, fechou a porta e foi beijá-

la. Depois sentou-se na cama, ao lado do sofá dela, e pegou-lhe na mão.

"Não ligue", acabou por dizer. "Está tudo bem, não está?" Dona Graça encolhe u os ombr os, despreocupada . "Claro que está tudo bem." Fez um gesto a indicar uma fotografia na revista. "Já viste esta lambisgóia da televisão?

Veio para aqui dizer que conheceu agora o amor da vida dela e que fez com ele... enfim, coisas na praia. Minha nossa senhora, as pessoas já não têm tino nenhum! Agora vêm para as revistas falar sobre a sua intimidade! Credo, que mundo este! Já viste isto?"

Depois de se despedir da mãe desceu as escadas e foi bater à porta do gabinete da directora. Ouviu uma voz mandá-lo entrar, abriu a porta e espreitou para o interior.

"Olá", cumprimentou com um sorriso. "Tem um minuto?" Ao vê-lo ali Maria Flor arregalou os olhos de chocolate e pôs-se de pé num salto.

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