O corpo da directora do lar pareceu encolher-se no assento e os olhos de chocolate desviaram-se para o chão, incapazes de o encarar.

"Fui eu."

523

Fez-se um silêncio estarrecido no gabinete.

"Você?", perguntou Tomás quando recuperou a fala, ainda embasbacado com o que acabava de ouvir. "Pagou o que faltava da mensalidade da minha mãe? Do seu bolso?"

Maria Flor assentiu com a cabeça, o olhar baixo, a garganta emudecida, incapaz de o dizer novamente.

"Porquê?", perguntou ele, assombrado. "Porque fez isso?"

A directora levantou enfim os olhos e fitou-o.

"Porque não podia deixar que a pusessem na rua!", retorquiu, a voz de repente assertiva, o olhar incendiado por uma paixão que Tomás sempre lhe adivinhara mas nunca realmente vira. "Porque estou aqui para cuidar de pessoas, não para alimentar um mero negócio!

Porque o mundo pode estar de pernas para o ar, mas eu ao menos ainda sei quais são as minhas prioridades e responsabilidades! Porque, enfim, tenho vergonha na cara e sei que há muito mais na vida do que vender a alma por um punhado de patacos!"

Falou com exaltação, com o arrebatamento das pessoas que sabiam quem eram e para onde iam, e Tomás teve nesse instante vontade de a abraçar e a beijar e fazer com ela o que ainda nessa noite não conseguira fazer com Raquel. Mas conteve-se. Até então tinha mantido com Maria Flor uma relação estritamente profissional, ela era a directora do lar, ele o filho de uma idosa ali alojada.

Tornava-se evidente, todavia, que uma linha invisível entre os dois havia sido cruzada e não existia caminho de retorno.

Quando Maria Flor se calou, Tomás agradeceu-lhe por ele, pela mãe, pela compaixão que ela sentira por eles. Ainda pensou em pagar-lhe o valor que a directora metera do seu próprio bolso mas teve vergonha, percebeu que seria um insulto à grandeza e ao gesto de profunda humanidade de que fora objecto e por isso conteve-se.

Agradeceu até ficar sem mais palavras e perceber que o agradecimento a embaraçava, que ela na realidade nada fizera em 524

busca de reconhecimento mas apenas procedera com naturalidade, em verdade para consigo mesma.

De repente sem nada para dizerem um ao outro, como se à linha invisível que haviam cruzado se tivesse acrescentado uma barreira incorpórea mas estranhamente palpável, um silêncio desconfortável instalou-se entre ambos. Sentindo-se sem jeito nem conversa, atrapalhado pelo mutismo incómodo que surgira entre eles, o visitante levantou-se por entre palavras desajeitadas, dizendo que já se ia fazendo tarde e que estava na hora de se ir embora.

A directora permaneceu embatucada e balbuciou umas palavras de circunstância que ele nem percebeu, tão assarapantado se sentia.

Ao chegar à porta do lar, porém, Tomás estacou e fitou-a naqueles olhos castanhos, tão abertos e verdadeiros. Tentou dizer alguma coisa que expressasse o turbilhão que lhe ia na alma, mas nada lhe saiu e, derrotado, desistiu. Levantou a mão em despedida e, o espírito num tumulto, começou a caminhar em direcção ao automóvel, a timidez a vencer a ousadia, a inibição a impor-se ao atrevimento, a razão a ganhar à emoção. Pensou que tinha era de ter juízo e respeitar aquela mulher e o seu gesto e não fazer disparates.

Deteve-se a meio caminho, a vontade a desobedecer à cabeça, o coração a rebelar-se contra as convenções, o corpo todo ele em insurreição. Porque não proceder como o instinto lhe sugeria?, porque não render-se à doce tentação da loucura?, porque não escutar a voz que lhe soprava sussurros de atrevimento? Virou-se e olhou-a de novo, a coragem subitamente recuperada, a ousadia enfim vencedora. Maria Flor permanecia à porta do lar, os olhos brilhantes, o rosto corado, o cabelo a esvoaçar sob o efeito da brisa que soprava fresca de norte, como se a noite acabada de cair a quisesse abraçar com tanta vontade como ele.

"E que tal se fossemos jantar?"

525

Nota Final

É difícil escrever sobre a Segunda Grande Depressão sem, de uma maneira ou de outra, mesmo que não o queiramos, nos posicionarmos no aceso debate ideológico que esse traumático acontecimento suscitou. A esquerda diz que a culpa é dos mercados desregulados, da ganância e do liberalismo económico, a direita responde que a verdadeira causa é o despesismo desmedido e o enorme estado social que a menor riqueza gerada já não consegue sustentar.

Перейти на страницу:

Похожие книги