Virou à esquerda, direitinho ao cais, até que mergulhou numa zona de sombra e, tirando proveito da invisibilidade momentânea, dobrou a esquina de um prédio e contornou-o pelas traseiras, metendo por um caminho de cabras numa zona descampada. Agora é que se ia ver se o polícia se deixava ou não enganar.

"Alto!", gritou o seu perseguidor, a voz de novo a ecoar entre as ruas. "Faça o favor de se entregar!"

Mergulhado na sombra, e apesar de se encontrar à beira da exaustão, Tomás deixou escapar um sorriso. Despistara-o. Os berros eram a prova de que o polícia lhe perdera o rasto; só assim se compreendia o regresso àquele método desesperado.

A nova realidade impunha uma bem-vinda mudança táctica; em vez da correria desenfreada em que tanto se desgastava, teria de se mover devagar e sub-repticiamente pela penumbra. A invisibilidade constituía o seu maior trunfo. Caminhou com cuidado e procurou o abrigo de um arbusto para repousar por momentos. Os pulmões suplicavam por ar e precisava de lhes dar o que eles pediam.

Ouviu sirenes e percebeu que o polícia recebia reforços. Em breve toda a zona de Cacilhas estaria enxameada de guardas, mas isso não o preocupou. Encontrava-se a quinhentos metros do prédio atrás do qual desaparecera e o arbusto e a noite protegiam-no dos olhares perscrutadores dos homens da PSP.

O que fazer? O seu olhar desviou-se quase instantaneamente para os cacilheiros encostados ao cais, ao fundo da colina. Era a escapatória evidente, pensou de novo; talvez por isso mesmo fosse a 194

rota que mais convinha evitar. Se ele fosse polícia, com certeza poria ali homens a vigiar os passageiros. De facto, aquela via estava-lhe interditada. A alternativa parecia-lhe a Ponte 25 de Abril, claro, mas depressa concluiu que a PSP ia ter a mesma ideia e provavelmente estabeleceria vigilância apertada na zona das portagens.

Em suma, o acesso a Lisboa estava-lhe vedado. "Mas o que raio vou eu fazer a Lisboa?"

Sussurrou a pergunta por baixo da respiração e percebeu que tinha acabado de formular a questão mais importante de todas naquele momento. Sim, o que iria ele fazer a Lisboa? Não podia usar o apartamento porque os perseguidores, e se calhar a esta hora também a polícia, o estavam a vigiar. Para onde quer que fosse na cidade sujeitava-se a ser localizado e apanhado pelas autoridades. Como se tornava cada vez mais claro que as forças que o perseguiam de uma maneira ou de outra controlavam a polícia, ser capturado pela PSP ou pela Judiciária era equivalente a ser apanhado por elas.

Um coro longínquo de latidos excitados irrompeu na noite.

"Cães!"

Ergueu-se de um salto e retomou o caminho de fuga, agora já recuperado e espevitado pelo medo que os latidos distantes lhe provocaram. Que burro fora em não ter pensado naquilo!, repreendeu-se a si mesmo; era evidente que a polícia iria recorrer aos cães e isso poderia desequilibrar os pratos da balança contra ele. Os homens da PSP estavam cegos pela treva nocturna, mas os cães tinham o faro a guiá-los e não havia noite que apagasse o odor da transpiração que lhe empapava a camisa.

Saiu do descampado à primeira oportunidade e emergiu nas ruas de Almada, que percorreu em passo lesto, suficientemente devagar para não atrair atenções, prudentemente rápido para se escapar da zona onde a polícia e os cães operavam. O movimento permanecia baixo, dava a impressão de que toda a povoação se recolhera a casa, 195

mas ainda se viam algumas pessoas a circular por ali.

Reconheceu a rua onde desembocara do trajecto que fizera ao final da tarde até à esquadra e seguiu-a em sentido inverso, como se regressasse ao hospital. Ao fim de quarenta minutos chegou a um troço que dava acesso à auto-estrada. Viu as luzes de um restaurante acesas e apercebeu-se de que estava esfaimado; não comia desde que haviam parado na estação de serviço de Pombal para reabastecer. Pareceu-lhe que isso tinha acontecido uma semana antes mas afinal fora nesse mesmo dia. Quantas coisas haviam sucedido entretanto!

Meteu a mão ao bolso e verificou que, embora não tivesse dinheiro, possuía ainda os seus dois cartões de crédito; estava à vontade para o jantar. Entrou no restaurante, sentou-se num canto discreto e, depois de consultar a ementa, pediu um bitoque. Enquanto esperava pôs-se a pesar as alternativas diante dele. Ir para Lisboa, como já constatara, era um disparate; arriscava-se a ser apanhado pela polícia ou pelo pistoleiro, estava absolutamente fora de questão regressar ao apartamento.

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