Magus respirou fundo e fez um esforço para se conter; não era com ataques de fúria que ia resolver o problema. Tinha uma crise entre mãos e havia que manter o sangue frio para lidar com a situação. A avaliação do desempenho do seu homem no terreno viria mais tarde e seria feita em função dos resultados. Tudo o que interessava agora era pôr um fim a todo aquele imbróglio, custasse o que custasse.

"Onde estás tu?"

"Em Lisboa, grande Magus."

O dirigente máximo voltou a sentar-se e, esforçando-se por se descontrair, apoiou os cotovelos na mesinha enquanto magicava num novo curso de acção.

"Deixa-te estar aí", disse num tom subitamente frio. "Conta-me tudo o que se passou. Ao pormenor. Depois vou fazer uns telefonemas para as autoridades locais e mexer uns cordelinhos para ver se te entrego esse estafermo embrulhadinho."

Decarabia relatou então todos os acontecimentos dessa tarde, desde que os seus alvos se detiveram diante da porta do prédio até à correria pela rua, aos tiros, ao polícia abatido, à perseguição de moto, à colisão diante do Cais das Colunas, ao alvo atingido e à fuga para o cacilheiro.

Quando o seu subordinado terminou a exposição, Magus despediu-se de forma seca e expedita, desligou o telefone e, acto contínuo, digitou o número de um gabinete governamental em Lisboa. Quando o seu contacto atendeu, as primeiras palavras que proferiu foram directas ao assunto.

"Tenho um problema e preciso que o resolvas com a polícia."

186

XXV

O final de tarde dessa terça-feira foi passado a fazer exames no hospital. Os hematomas sofridos na Grécia já haviam desaparecido, agora substituídos por feridas e nódoas negras nas costas, nos cotovelos e nas pernas, provocadas pela brutal colisão de motos diante do Cais das Colunas. Tomás ainda pensou que lhe fariam uma TAC para o examinar com mais pormenor, mas os médicos disseram-lhe que esse tipo de exame era demasiado caro e que os apertos orçamentais nos gastos da saúde lhes restringiam as opções. Teriam de se contentar com os raios X.

O exame radiológico, contudo, nada acusou de relevante; os ossos estavam intactos e as lesões eram superficiais. Mesmo assim passou pela enfermaria para desinfectar as feridas, em particular as dos cotovelos, e para lhe porem uns pensos. Depois ainda teve uma consulta com o médico e ao sair uma enfermeira passou-lhe para a mão um papel oficial com as armas da PSP.

"É a convocatória da polícia", indicou ela. "Convém dar um salto à esquadra para prestar declarações e explicar o que aconteceu."

Ao sair do hospital com o envelope do dossiê de Filipe debaixo do braço, Tomás ponderou o que fazer. Ainda admitiu voltar ao seu apartamento, mas depressa pôs a ideia de lado. Nem pensar. Com toda a probabilidade tinha a casa sob vigilância; ir para lá seria meter-

-se direitinho na boca do lobo. Assim sendo, para onde iria? Os hotéis estavam fora de questão, eram demasiado caros; além disso, quem quer que estivesse atrás do famoso DVD poderia ligar para todos os 187

hotéis de Lisboa e arredores a perguntar por um hóspede chamado Tomás Noronha. Não podia correr esse tipo de risco.

Onde diabo iria dormir?

Pousou o olhar na convocatória da PSP, a solicitar que comparecesse na esquadra no dia seguinte para fazer declarações, e teve uma ideia. Porque não ir imediatamente à esquadra? Logo que pensou nisso percebeu que era esse o único curso de acção verdadeiramente razoável. Se estava sob ameaça, quem melhor que a polícia para o proteger? Por outro lado, como não se entendia com a Internet do banco, precisava de ir a uma sucursal ordenar a transferência do dinheiro para o lar da mãe, mas já era tarde e os bancos estavam fechados; teria de deixar isso para a manhã seguinte.

Estudou de novo a convocatória e verificou o endereço da esquadra; era no Largo dos Bombeiros Voluntários. A informação nada lhe dizia; tratava-se de uma praça de que nunca ouvira falar em Almada, de resto uma localidade que, vendo bem as coisas, nem sequer conhecia.

Dirigiu-se por isso à fila de táxis estacionados diante do hospital e interpelou um motorista que aguardava os clientes de janela aberta, o braço pendurado na porta.

"Ó amigo, onde é o Largo dos Bombeiros Voluntários?" O taxista estendeu o braço na direcção oriental.

"É depois da auto-estrada, perto do cais de Cacilhas!", indicou.

"Quer que o leve lá?"

Tomás hesitou; o táxi era sem dúvida a melhor e mais fácil solução, mas... e o preço? Estava no desemprego, teria de ser poupadinho.

"Quanto tempo a pé?"

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