O camionista era um transmontano de Alfândega da Fé a quem Tomás, que nem ligava muito ao futebol, respondeu polidamente com vários "pois é!", um "este ano vamos ganhar tudo" e outro "precisamos é de um novo Eusébio", antes de voltar ao dossiê.
Às três da manhã o motorista saiu da auto-estrada e estacionou na zona de descanso de uma área de serviço.
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"Não posso mais com o sono", confessou, os olhos a pestanejarem assustadoramente. "Vamos mas é bater uma soneca."
Desligou o motor e uma calma retemperadora assentou no interior do camião. Os dois homens inclinaram os assentos para trás e Tomás, o sono enfim a tomar conta dele, escondeu o taser dentro do envelope por recear que ele se tornasse visível à sua cintura e cerrou as pálpebras, preparando-se para dormir.
De repente sentiu um desagradável e intenso odor a queijo estragado e abriu um olho.
"Que é isto?"
Espreitou para o lado e constatou que o motorista acabava de descalçar os sapatos. Com um grunhido conformado, o passageiro virou-se para o outro lado, na ilusão de que as costas chegariam para tapar o cheiro. Ainda matutava naquele fedor pestilento quando, sem dar por isso, escorregou para o sono solto.
Chegaram a Madrid por volta das dez da manhã e o camionista saiu da Autovía de Extremadura e largou-o na zona de Alcorcón, junto ao Parque de los Castillos. Não foi fácil encontrar cabinas telefónicas num mundo de telemóveis, mas acabou por localizar uma delas ao lado da sucursal de um banco. Entrou na cabina, procurou o papel com o contacto que Filipe lhe dera e digitou o número.
Ao terceiro toque atendeu uma voz feminina.
"Hola?"
"Buenos dias", saudou Tomás, ele próprio arrepiado com o seu portunhol horripilante. "Raquel de la Concha?"
"Si, soy yo."
"Chamo-me Tomás Noronha", identificou-se, desistindo do portunhol e optando por falar um português lento. "Sou amigo de Filipe Madureira, não sei se conhece..."
"Si, muy bien. Como está Filipe?"
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O historiador engoliu em seco.
"O Filipe... enfim, ele morreu. Ontem."
"Perdón?"
"O Filipe morreu", repetiu, quase soletrando cada sílaba. "Ontem...
uh, ayer. Foi assassinado."
"Filipe? Asesinado?"
"Receio bem que sim."
"Dios mio!"
Sentiu o choque do outro lado da linha e deixou a notícia assentar.
Não sabia o tipo de relação que o amigo tinha com a espanhola e achou que era melhor ser cauteloso.
"Antes de morrer deu-me o seu contacto", explicou. "Quem o matou está agora a perseguir-me e o Filipe disseme que viesse ter consigo. Encontro-me agora em Madrid e estou na posse de material importante para a investigação na qual ele estava envolvido e que..."
"Sí, venga, vengar, atalhou Raquel, ainda mal refeita do choque.
"Estou numa pequena povoação pertinho de Madrid, alguns quilómetros a sul. Pode vir até cá?"
"Com certeza", assentiu Tomás, aliviado com a abertura mostrada pela amiga de Filipe e preparando a caneta para rabiscar o endereço.
"Onde é isso?"
"Em Seseha, a quarenta minutos de carro."
"Não tenho automóvel e não posso pagar táxi, receio bem. Há autocarro ou comboio?"
"Existe um serviço de autocarros que parte de Madrid. Pode tomar nota?"
"Diga."
"Vá à Plaza Beata Maria Ana de Jesús e apanhe o 304 às onze e meia. Leva quarenta minutos de viagem, é um tirinho."
"Estará à minha espera à chegada?"
Ela fez uma pausa para pensar.
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"O mais fácil é encontrarmo-nos à entrada do Café Nirvana. Que tal ao meio-dia e meia?"
"Perfeito."
Quando desligou e saiu da cabina telefónica Tomás consultou o relógio; eram dez e vinte da manhã, tinha muito tempo. Cravou o olhar na sucursal do banco instalada mesmo ao lado e vacilou, indeciso em relação ao que fazer a seguir. Deveria confiar inteiramente em Raquel ou seria melhor manter-se prudente? Filipe assegurara-lhe que ela era de confiança absoluta, mas o historiador não tinha assim tanta certeza; os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas haviam-no ensinado a ser cuidadoso.
Vencendo as dúvidas, entrou no banco e pôs-se na fila dos clientes.
Quando chegou a sua vez encostou-se ao balcão e encarou a funcionária bancária.
"Hola, señorita!, disse, regressando ao seu portunhol trapalhão.
"Será possível alugar um cofre?"
"Sí, como no?", devolveu ela. "Terá de abrir uma conta, por supuesto."
A funcionária ao balcão indicou-lhe um espaço privado protegido por biombos onde uma segunda funcionária se encontrava sentada a uma mesa. Tomás dirigiu-se a ela e explicou-