-lhe o que desejava. Depois de preenchida a papelada e cumpridas as formalidades, a segunda funcionária entregou-lhe uma chave e passou-o a um segurança que o conduziu por um corredor até ao sector onde se situavam os cofres. O segurança indicou ao cliente o cofre que lhe estava destinado e afastou-se, deixando-o a sós.

Sentindo-se enfim à vontade, Tomás tirou o maço de notas do interior do envelope e contou a soma. Eram quinhentos euros em notas de vinte; não se tratava de nenhuma fortuna mas dava para as despesas correntes agora que tinha as contas bloqueadas. Satisfeito 205

com a maquia, certificou-se a seguir de que o taser se encontrava também dentro do sobrescrito. Assim era. Por fim depositou o envelope no cofre e trancou-o com a sua chave.

"Já está!", disse, fazendo sinal ao segurança de que terminara.

"Podemos ir."

O homem acompanhou-o até à saída e deixou-o no passeio. Ao sentir o bafo do sol quente queimar-lhe a face, Tomás consultou o relógio; eram quase onze, hora de partir para Seseña.

Abeirou-se da rua para procurar um táxi, mas o seu olhar desviou-

-se quase irresistivelmente para a cabina telefónica; havia um telefonema que tinha mesmo de fazer. Verificou de novo as horas, no gesto quase reflexo de quem procurava convencer-se de que ainda tinha tempo para mais uma chamada.

Depois de inserir a moeda, digitou o número. Fazia calor no interior da cabina, mas nada disso o incomodava.

O sinal de chamada soou duas vezes e foi interrompido por um clique.

"O Lugar do Repouso, bom dia."

Reconheceu a voz de mulher que atendera e não reprimiu um sorriso; como era bom escutar uma voz amiga nas circunstâncias em que se encontrava nesse momento.

"Maria Flor? Daqui Tomás Noronha, como está?"

Fez-se uma curta pausa do outro lado da linha.

"Professor Noronha!", exclamou por fim a directora do lar num tom de surpresa. "Confesso que..." Hesitou e pareceu mudar a direcção da frase. "Vi-o... vi-o nas notícias."

"Não acredite em nada disso", apressou-se Tomás a esclarecer.

"Trata-se de um terrível equívoco e estou neste momento a tratar de o desfazer. Fique descansada que não sou assassino nenhum."

Ouviu um suspiro aliviado do outro lado da linha.

206

"Ah, não imagina como folgo em ouvi-lo dizer isso", desabafou ela, de repente mais leve. "Nem sabe o choque que senti quando estava ontem a ver o Telejornal. Não queria acreditar! Parecia que... sei lá, o mundo tinha enlouquecido..."

Falava como se lhe tivessem retirado um peso de cima, a voz modulada em simpatia e familiaridade. Dava até a impressão de que eram íntimos havia muito tempo e que ela o conhecia tão bem que percebia pela voz que ele lhe dizia a verdade.

"Esta situação é terrível", desabafou Tomás. "Mataram o meu amigo e estão a acusar-me do crime."

"É incrível!", exclamou ela. "O senhor está bem?"

"Tanto quanto é possível", assentiu. "Por favor, chame-me Tomás.

Achava que já tínhamos acertado isso."

"Está bem... Tomás."

"Oiça, queria também saber da minha mãe. Como vai ela?"

"Já comecei a vigiar mais a medicação e notei-lhe esta manhã uma evolução. Falou-me um bocadinho do estado do tempo, coisa que ontem não fazia."

Tomás respirou fundo, ganhando balanço para abordar o tema que realmente o preocupava.

"Sabe, quanto ao pagamento da mensalidade da minha mãe...

neste momento não estou em condições de aceder às minhas poupanças, como deve compreender. Será que pode esperar mais algum tempo?"

Fez-se um silêncio do outro lado da linha tão desconfortável que não augurava nada de bom.

"Quando vi a notícia sobre si no Telejornal, e prevendo justamente este problema, tomei a iniciativa de falar com os proprietários do lar sobre o assunto."

"E... e então?"

"Lamento muito, mas eles dizem que não haverá excepções. A 207

diferença em falta tem de ser reposta até quinta-feira à noite."

"Isso é já amanhã!..."

"Eu sei". Fez uma pausa embaraçada. "Olhe, insisti muito, acredite..."

Agarrado ao telefone, Tomás encostou a testa ao vidro da cabina e, com as pontas dos dedos da mão livre, esfregou o couro cabeludo em desespero; as suas opções estavam a esgotar-se e, sem emprego e com a polícia à perna, não via maneira de resolver o problema.

Como era possível que a sua vida se tivesse desestruturado daquela maneira em tão pouco tempo?

"E agora?", murmurou para o bocal. "O que vou eu fazer?"

Fez-se uma pausa ao telefone.

"Não desespere, Tomás", disse ela. "Vou pensar numa solução qualquer."

"Mas que solução? O que se pode fazer?"

Novo silêncio embaraçado na linha.

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