O que mais nela se destacava eram os olhos hipnóticos de felino, de um esmeralda-claro tão luminoso que pareciam dois focos de luz verde cravados no rosto. A rapariga levou um longo instante a responder. Manteve os olhos intensos espetados nele. Não se percebia se estavam alarmados ou desconfiados, o facto é que o estudavam com enorme atenção, talvez mesmo cautela.

"O senhor é o amigo de Filipe Madureira?"

Falou devagar, como se tacteasse o terreno, e o recém-chegado quase bufou de alívio.

"Tomás Noronha", apresentou-se, estendendo a mão. "Presumo que seja a Raquel."

A rapariga apertou-lhe a mão com uma certa hesitação, dir-se-ia relutância, mas depressa pareceu ganhar à-vontade. "Sim, sou eu. Quem é o senhor exactamente?"

"Sou um amigo de infância de Filipe", disse. "Fizemos o liceu juntos."

212

"Então porque nunca me falou ele em si?"

"Os nossos caminhos separaram-se quando fui para a faculdade tirar História", explicou Tomás. "Os contactos entre nós tornaram-se esporádicos. Acontece que há uns dias ele apareceu-me em Lisboa com ar desgrenhado e pediu-me ajuda. Parece que estava envolvido numa investigação sobre a crise e que entrara na posse de determinada informação que..." "Aqui não!", interrompeu-o Raquel, lançando miradas em redor para se certificar de que ninguém os escutava. "Vamos para o meu apartamento, espero que não veja inconveniente nisso."

"Como queira."

A espanhola virou-se e começou a caminhar na direcção de uma fila de automóveis estacionados junto ao passeio. Tomás foi atrás dela e, quase sem querer, obedecendo a um instinto de homem, desceu o olhar para os jeans apertados, e em particular o traseiro arredondado; Raquel era uma rapariga incontestavelmente atraente, de um desportivo elegante, o corpo curvilíneo e adelgaçado.

"Certificou-se de que ninguém o seguiu?"

Numa reacção reflexa, Tomás olhou para trás.

"Não tenho qualquer qualificação ou talento especial para despistar pessoas", observou. "Mas não creio que me tenham seguido, fique descansada."

Raquel destrancou por controlo remoto um Ford Fiesta encarnado impecavelmente lavado e acomodaram-se ambos no interior da viatura. Fazia calor, mas ela ligou de imediato o ar condicionado e a temperatura ficou regularizada. Fez marcha atrás e arrancou rua fora sem dizer uma palavra. Não parecia conversadora, mas isso não incomodou Tomás. Tinha dormido mal nessa noite e aproveitara a curta viagem entre Madrid e Sesefia para pôr o sono em dia. Agora que ia no carro apetecia-lhe voltar a adormecer, mas achou que não faria boa figura e esforçou-se por manter os olhos abertos.

As ruas de Sesefia apresentavam-se desertas, com os blocos de 213

apartamentos repletos de cartazes a dizerem "se vende" ou "alquila"

e a indicarem números de telefone. Viam-se parques infantis sem vivalma, lojas fechadas e erva a nascer nos passeios. Algumas estruturas de prédios estavam em esqueleto, como se a construção tivesse sido abandonada a meio. Parecia que circulavam numa cidade-fantasma.

"Caramba!", exclamou o visitante, surpreendido. "É impressionante, isto! Olhe só para o número de apartamentos para venda ou aluguer... Incrível, hem?"

"É a crise", disse a espanhola sem tirar os olhos do caminho. "Já deve ter ouvido falar na crise, não?"

Disse-o com uma ironia amarga que não escapou ao português.

"Sim, com certeza", respondeu Tomás. "Eu próprio perdi O

emprego." Indicou os prédios que ladeavam a rua. "Mas Uma coisa assim nunca tinha visto..."

Raquel respirou fundo, como se se rendesse à evidência de que, contra a sua vontade, seria forçada a falar.

"Aqui em Seseña foram construídos dezasseis mil apartamentos, com capacidade para quarenta mil pessoas. Desde que a crise rebentou sabe quantos desses apartamentos estão ocupados?"

"Em dezasseis mil? Não faço ideia. Mil? Cinco mil?" A espanhola virou a cara para ele.

"Sessenta."

O visitante assobiou, os olhos colados às ruas desertas e aos blocos de prédios vazios.

"Incrível!", exclamou. Depois balançou afirmativamente a cabeça, como se aquilo batesse certo com tudo o que sabia. "Não há dúvida, a bolha imobiliária espanhola foi a maior de todas." Indicou as fachadas com o polegar. "Tanto quanto sei foram construídas mais habitações em Espanha do que em França, Alemanha e Itália juntas. Estamos a falar de seiscentas mil casas por vender e outras seiscentas mil em construção, o 214

que dá mais de um milhão, não é? É muito. Os empréstimos para os construtores espanhóis subiram oitocentos e cinquenta por cento desde 2000 até ao colapso financeiro." Suspirou. "Vocês estão atulhados em porcaria até ao pescoço, receio bem."

Raquel fitou-o com uma expressão admirada na face.

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