Decarabia ficou escondido atrás de um pilar, a vigiar a rua e à espera de novidades.
O batedor regressou dez minutos mais tarde e encostou-se ao pilar para apresentar o seu relatório.
"O apartamento do segundo andar está de facto ocupado", revelou, indicando o prédio que vigiavam nesse instante. "Vi uni homem e uma mulher na sala."
240
"O que fazem eles?"
"Estão sentados à mesa a conversar", foi a resposta. "Têm uns pratos diante deles."
"São os nossos pombinhos?"
O batedor fez uma careta e encolheu os ombros.
"É difícil dizer", acabou por admitir. "Estão um pouco distantes, o vidro tem reflexos e, além do mais, apenas vi fotografias dos nossos alvos. Mas nada vi que me faça pensar que não eram eles. As idades conferem e os cabelos também."
O olhar de Decarabia mantinha-se colado à janela da sala do segundo andar do prédio em frente. Havia sempre a hipótese de não serem eles, mas isso parecia-lhe pouco provável. Numa rua em que quase todos os apartamentos estavam abandonados, era significativo que encontrassem um par homem e mulher exactamente no sítio onde deveriam encontrar. Uma coisa dessas não podia ser coincidência.
Desceu os olhos da janela e fixou os dois homens que Magus lhe tinha atribuído para a operação. Estariam eles à altura das dificuldades? Provavelmente sim, mas na verdade nada disso era importante. Se se revelassem incapazes, ali estava ele próprio, Decarabia, para fazer o que fosse necessário.
Fez um gesto com a mão a indicar o prédio onde se escondiam os seus alvos.
"Vamos!"
241
XXXVI
Apeteceu-lhes aquecer a digestão com uns goles de chá e interromperam a conversa para Raquel ir à cozinha ferver água. A anfitriã tinha porém tanta curiosidade de saber como em nove anos os bancos haviam levado a economia ao caos que deixou a chaleira a aquecer a água e apressou-se a voltar à sala para retomar o fio da conversa.
"Então diga lá", lançou ao seu convidado. "O que aconteceu depois de eles terem desregulado tudo em 1999?"
Sentindo-se cansado e até algo saturado, Tomás fez um estalido impaciente com a língua.
"Oh, isso conto-lhe depois!", exclamou. "Agora deixe-me descontrair um pouco, pode ser?"
Raquel desferiu uma palmada na mesa.
"Não! Conte-me agora!"
"Para quê a pressa? Deixe-me descansar."
Mas a espanhola não era mulher para se deixar vencer com tanta facilidade. Mudando de táctica com agilidade desconcertante, inclinou-se sobre a mesa e, sempre de olhos cravados no interlocutor, esboçou um sorriso que lhe deu um ar perturbadoramente insinuante.
"Sabe que os homens inteligentes me atraem?"
Disse-o com uma voz infinitamente doce e o historiador, que esticava as 242
pernas por baixo da mesa num movimento lânguido, endireitou-se de repente, espicaçado pela observação.
"Deveras?"
"Ah, sim. Muito." Voltou a acomodar-se na cadeira, cheia de confiança na eficácia dos seus poderes de sedução. "Estou certa de que não me desapontará..."
Tomás pigarreou. Os argumentos da espanhola poderiam parecer um tanto básicos, mas a verdade é que produziam o seu efeito.
"Estava então eu a falar na Lei Glass-Steagall, não é verdade?", perguntou, talvez excessivamente ansioso por se mostrar brilhante.
"A primeira grande consequência da eliminação dessa lei em 1999 foi o crescimento desmesurado de certos bancos. Em 1995, os cinco maiores bancos . americanos controlavam oito por cento do mercado, fatia que poucos anos depois do fim formal da Lei Glass-Steagall ascendeu a trinta por cento. Essa evolução foi muito grave e -
deveria ter obrigado a uma intervenção do Fed. Mas, como os reguladores eram ideologicamente contra a regulação e contra os princípios da Lei Glass-Steagall, cruzaram os braços e nada fizeram."
"Porque diz que o crescimento dos maiores bancos foi grave?", estranhou Raquel. "Qual a relevância disso?"
"Um dos fundamentos do capitalismo é a livre concorrência", lembrou Tomás. "Para que ela exista, o mercado tem de ser cuidadosamente regulado. Quando deixa de o ser, como foi o caso, o sistema capitalista atrofia e criam--se os oligopólios e os monopólios, que são muito nocivos à concorrência. Foi o que sucedeu. A primeira grande fusão ocorreu entre o Citicorp e o Travelers para formar em 1998 a maior companhia de serviços financeiros do mundo, o Citigroup, uma fusão ilegal porque violava a Lei Glass-Steagall. Foi aliás essa fusão que precipitou o fim da lei no ano seguinte. Os grandes bancos começaram então a abocanhar outros e a engordar mais e mais, engordaram tanto que de repente 243