Além do mais, ao juntarem as duas actividades, comercial e investimento, os bancos haviam-se tornado demasiado grandes e as suas falências afectavam todo o sistema e paralisavam a economia. Não podia ser. Foi por isso que a Lei Glass-Steagall os separou."
A espanhola fez uma careta e resmungou com cepticismo.
"Pois, mas essa medida falhou..."
"Pelo contrário", apressou-se Tomás a esclarecer. "As medidas de regulação foram um grande sucesso e as falências praticamente pararam logo que as novas regras entraram em vigor. Os bancos comerciais passaram a ser muito mais prudentes na gestão do dinheiro dos depositantes. Por um lado, o cidadão comum não queria de modo nenhum que as suas poupanças fossem arriscadas no casino das bolsas, pelo que o investimento de risco cessou. Por outro, os bancos comerciais passaram a viver exclusivamente da diferença entre os juros que pagavam aos depositantes e o juro que recebiam das pessoas, das empresas e dos países a que emprestavam o dinheiro. Como é evidente, tinham todo o interesse em só emprestar a quem pagasse, não é verdade? Isso garantiu a solidez do sistema."
"Desculpe, mas se assim fosse não teria havido o colapso financeiro em 2008, pois não? A ocorrência desse colapso prova que a regulação não funcionou."
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"Não, minha cara", retorquiu Tomás com grande ênfase. "O
colapso de 2008 prova que a regulação funcionou. Veja bem, durante um quarto de século o sistema financeiro não sofreu qualquer sobressalto, pois não?"
"Então o que correu mal?"
"O que correu mal foi que, nos anos 60, os bancos começaram a ser geridos por uma nova geração de banqueiros, gente que não tinha vivido os tempos da Grande Depressão e que queria expandir a sua actividade para áreas de maior risco, que eram mais lucrativas. Os novos políticos também não tinham passado pela grande crise de 1929
e aceitaram flexibilizar algumas regras de regulação, o que teve como consequência um maior comportamento de risco por parte dos bancos e o consequente aumento das falências nos anos 70."
"Se as falências aumentaram, porque não voltaram à regulação que tinha sido revogada?"
"Porque o clima ideológico se alterou", explicou o historiador.
"Lembre-se que a nova geração de líderes não tinha vivido a Grande Depressão e achava que os tempos tinham mudado e já não se justificavam determinadas medidas restritivas. Foi por isso que em 1980 o presidente Carter aprovou uma lei que permitia que os bancos se tornassem mais competitivos no pagamento de juros aos depositantes. Mas os grandes investidores de Wall Street achavam que isso não era suficiente e queixavam-se de que, ao limitar as actividades de risco, a regulação não os deixava fazer muito dinheiro. O que era verdade. A limitação do risco impedia as perdas catastróficas, mas também os lucros mirabolantes." Abriu os braços e sorriu. "Foi assim que, em 1981, a América elegeu para a Casa Branca um actor de Hollywood que tinha, o que não era inocente, o apoio entusiástico de Wall Street."
Raquel arregalou os olhos e, num tom de espanto, pronunciou o nome muito devagar.
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"Ronald Reagan ?"
Com um aceno afirmativo, o historiador anuiu.
"A retórica do mercado livre e da regulação conheceu um novo e poderoso impulso com a eleição do presidente Reagan. A ideia era simples: os mercados funcionam bem por si mesmos, os regulamentos são empecilhos que impedem o bom funcionamento da economia livre, a regulação não é a solução mas o problema, o mercado deve ser totalmente livre. Desregule-se!"
"Há uma certa lógica nesse raciocínio..."
"Uma lógica que só um tolo engole!", devolveu Tomás num tom categórico. "Imagine que não havia uma lei a proibir o homicídio. O