se tornaram demasiado grandes. Ficaram de tal modo gigantescos que o seu eventual colapso se tornou impensável porque arrastaria toda a economia com eles, percebe?"

"Criou-se um risco sistémico, como em 1929."

"Isso mesmo. Com uma agravante: como eles próprios sabiam que se tinham tornado demasiado grandes para que se aceitasse a sua falência, começaram a sentir-se impunes. Isto é, podiam correr todos os riscos imagináveis para ganhar dinheiro. Se corresse bem, ficavam com os lucros só para eles. Se corresse mal, o estado interviria com o dinheiro dos contribuintes para os salvar e impedir o colapso geral da economia. Está a ver o esquema? Arriscar passou a compensar porque os grandes bancos ficariam com os prémios e jamais com os prejuízos, uma vez que o estado nunca os deixaria cair."

A espanhola assentiu com um movimento pendular da cabeça.

"Hmm... estou a entender", murmurou. "Mas que riscos correram eles exactamente?"

O historiador esfregou as mãos com indisfarçável entusiasmo, preparando-se para entrar no filet mignon.

"Ah, isto agora é que se torna interessante!", exclamou. "Em primeiro lugar, desenvolveram um esquema de bónus em que recebiam uma fortuna por desempenhos anuais e até trimestrais. Se, por exemplo, tomassem uma medida que desse muito lucro imediato, embora fosse ruinosa a prazo, recebiam o bónus no final do ano ou mesmo do trimestre. Quando os efeitos negativos da decisão viessem, ao fim de alguns anos, já ninguém lhes podia tirar os seus ricos bó-

nus." Piscou o olho. "Está a ver a marosca?"

"Estou, estou."

"Isso escancarou os portões da ganância desenfreada, como é evidente", disse. "Tradicionalmente os bancos comerciais faziam lucro a emprestar o dinheiro dos depósitos a um Juro maior do que aquele que pagavam aos depositantes. Mas com os novos poderes 244

que lhes foram entregues pela desregulação descobriram novas maneiras de fazer dinheiro. Uma delas foram as comissões. O cliente faz uma transferência de dinheiro para a conta da avó? Paga uma comissão. O cliente compra à namorada um perfume com cartão de crédito? Paga uma comissão. Tudo paga comissão!"

"É um horror, eu própria me queixo disso", observou a espanhola. "O meu banco cobra-me pela mínima coisa que faça..."

"Na altura em que a Lei Glass-Steagall foi finalmente eliminada, em 1999, estava em curso a bolha dot com, em que toda a gente investia à maluca em empresas da internet", disse Tomás. "Acontece que essa bolha rebentou logo no ano seguinte, precipitando uma recessão nos Estados Unidos. O que fez o Fed? Baixou as taxas de juro, num esforço para encorajar o crescimento económico. O

dinheiro ficou muito barato e para onde começou a fluir? Para o mercado imobiliário, até porque o presidente Bush tinha acabado de isentar de impostos as casas até meio milhão de dólares. As propriedades são produtos caros e, como as comissões são muitas vezes cobradas em percentagens, os bancos viram aqui uma mina de ouro. Portanto, toca a emprestar dinheiro para as pessoas comprarem casa!"

O olhar de Raquel desviou-se quase instintivamente para Os prédios abandonados de Seseria, visíveis da janela da sala.

"Foi assim que começou a bolha do imobiliário?"

"Nem mais", confirmou o seu interlocutor. "Para alimentar essa bolha, os bancos contaram com as taxas de juro muito baixas e com uma série de inovações financeiras que pouca gente compreendia.

Os derivados, por exemplo, produtos novos que uma lei de 2000

garantiu não poderem ser regulados."

A espanhola esboçou um esgar de incompreensão. "Deriva... quê?

O que é isso?"

"Nem os próprios banqueiros percebem muito bem", riu-se Tomás.

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"Como o próprio nome indica, os derivados derivam o seu valor de qualquer produto. Por exemplo, imaginemos que eu aposto que o valor das acções da vossa companhia aérea, a Ibéria, daqui a um ano está mais alto. Essa aposta é um derivado, está a perceber? No fundo trata-se de um mercado de apostas. Fazem-se apostas sobre o valor futuro das acções das empresas, do estado do tempo, do preço do petróleo, do ouro, do milho... do que quer que seja. Isso são derivados. A aposta de que o valor da aposta de que as acções da Ibéria valem mais daqui a um ano é um derivado baseado num derivado."

Raquel revirou os olhos verdes luminosos.

"Santa Madre de Dios, as coisas que eles inventam!"

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