Fez a pergunta com a ansiedade de quem se sentia encurralada e acabava de tomar consciência de que tomara um caminho que não levava a parte alguma. Se a própria polícia internacional, para quem ela trabalhava e onde conhecia toda a gente, a riscara do mapa, que hipóteses na verdade tinham? Tudo aquilo lhe parecia incrível e reforçava a convicção de que enfrentavam forças muito poderosas, demasiado para as suas capacidades limitadas.
"E agora?", disse Tomás, ecoando a pergunta da espanhola e preocupado com o seu semblante derrotado. "Isso pergunto-lhe eu, você é que é a profissional. Qual é a sua análise da situação?"
A expressão de Raquel, de olhos esbugalhados e presos nele, roçava o pânico.
"Estamos perdidos."
A agente da Interpol passou a tarde sentada no sofá, prostrada pelo desânimo, o televisor ligado num canal de notícias mas a atenção a deambular por parte incerta, perdida no labirinto da armadilha que sobre eles se fechara.
Depois de sair para comprar comida numa mercearia do bairro, Tomás sentou-se ao lado dela no sofá e entregou-lhe uma chávena de café que tinha trazido da rua. Na televisão passava um noticiário com os preparativos para a cimeira europeia em Roma, onde supostamente se iria preparar mais um "pacote decisivo" que poria fim à crise das dívidas soberanas, e informações sobre a sessão preliminar do TPI, marcada para o dia seguinte em Florença e presidida pelo próprio presidente da Comissão Europeia. Depois vieram imagens de tumultos estudantis em Madrid e a seguir um acidente numa carretera qualquer, assunto que lhe pareceu desinteressante e o fez desviar a atenção para outras prioridades.
Foi ao escritório buscar uma caneta e um bloco de notas e, sempre acompanhado do envelope que Filipe lhe dera, voltou ao sofá 285
e pôs-se a estudar o criptograma escrevinhado no sobrescrito.
"GOsanSEC não quer dizer coisa nenhuma", murmurou, entabulando uma conversa consigo mesmo. "Nem OTat+&AR nem qualquer das outras linhas horizontais." Leu as linhas verticais, começando pela primeira à esquerda. "GOHO." Pensou na palavra.
"Parece Soho, o bairro de Londres ou Nova Iorque." Abanou a cabeça.
"Mas é GOHO." Separou a palavra. "GO HO? GO de vai? Vai a HO?
Hmm..." Passou à segunda linha vertical. "OTEV." Parou aqui. O jogo entre vogais e consoantes sugeria de facto uma palavra. Leu ao contrário, de baixo para cima. "VETO." Ora aqui estava uma palavra.
A solução seria ler de baixo para cima? Tentou com a primeira linha vertical. "OHOG." Depois com a terceira linha vertical. "SRas." Não, não podia ser essa a rota adequada. Aliás, era até demasiado simples e Filipe jamais escolheria uma solução tão elementar. "Hmm... e se..."
Sentada ao lado dele, Raquel pareceu despertar.
"Que está você a fazer?"
As múltiplas hipóteses cruzavam-se na mente do historiador, como se a charada fosse um imenso Sudoku, mas desfizeram-se como uma nuvem de vapor quando se sentiu interpelado.
"Eu?" Indicou as quatro linhas enigmáticas garatujadas no sobrescrito. "Estou a decifrar isto, claro."
"Está a perder o seu tempo", resmungou ela. "Não é assim que resolvemos o nosso problema."
O português virou-se para ela com um sorriso a aflorar-lhe o rosto.
"Está enganada", sentenciou, deixando transparecer mais 286
confiança do que aquela que verdadeiramente sentia. "Está aqui a nossa salvação."
A forma categórica como falou pareceu emprestar algum ânimo à agente da Interpol. Raquel pousou os olhos felinos no criptograma, uma ténue luz de esperança a acender-lhe o rosto.
"Descobriu alguma coisa?"
Tomás abanou a cabeça e concentrou-se de novo na charada.
"Ainda não", reconheceu. "Mas tenho a certeza de que vou desvendar a mensagem aqui escondida."
"Como pode ter a certeza? Isso parece tão... tão estranho..."
O historiador riu-se.
"Tenho a certeza porque sou bom no que faço."
A agente da Interpol fez uma careta e, brincalhona, deitou-lhe a língua de fora.
"Convencido!"
Tomás ia responder, mas deteve-se e ficou a observá-la, Os olhares de ambos presos um no outro, verde-berlinde com verde-esmeralda, ele a desfazer o sorriso, ela a recolher a língua mas não totalmente, os lábios entreabertos e molhados, as chamas a acenderem-se e a transformarem-se num incêndio.
Caíram um no outro.
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XLIV
A sua experiência de combate era extensa e digna de respeito, com múltiplas operações das forças especiais no Iraque, no Afeganistão e até no Iémen, mas nada disso impediu que, no momento em que entrou no gabinete e encarou o seu superior hierárquico, Decarabia se sentisse muito mais nervoso do que alguma vez imaginara possível.