"Um itinerário", disse. "Quando éramos miúdos, os anagramas que fazíamos eram elaborados com um itinerário e depois partidos ao meio." Pegou na caneta e no bloco de notas e sentou-se no sofá. "Se eu estivesse no lugar dele e quisesse mandar uma mensagem para mim, teria elaborado uni itinerário igual àqueles que nós fazíamos no tempo do liceu."
"Mas que itinerário? Explica-te!"
Com movimentos quase frenéticos da mão, experimentou colar as quatro linhas numa única linha.
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294
Não parecia fazer o menor sentido. A presença do ponto a dois terços da linha, todavia, chamou-lhe a atenção. O que seria normal era o ponto terminar a linha. Vendo bem, parecia-lhe seguro que o ponto representava o final da mensagem. Como realinhar o criptograma de modo a conseguir esse efeito? Talvez a solução fosse começar pela quarta linha e dar a volta até chegar à terceira, onde o ponto se encontrava.
Fez a experiência.
OVSANSMBGOsanSECOTata+&ARHERTATO.
Continuava a não fazer muito sentido. Teria de facto de apostar num itinerário qualquer. Tentou várias opções em que transformou as quatro linhas em duas, mas foi-as alterando até chegar a uma configuração em que se deteve mais tempo.
GOsanSECHERTATO.
OTat+&AROVSANSMB
Deteve os olhos neste arranjo e ficou um longo momento a fitá-lo, a respiração suspensa, o olhar esgazeado. De repente desviou a atenção para Raquel, voltou a pousá-la no rearranjo da charada e encarou-a mais uma vez, os olhos a saltar de um lado para o outro como se tentasse confirmar no rosto da espanhola ou nas letras cio criptograma a solução que se lhe formara diante dos olhos.
"Eureka!", gritou de repente, o corpo a estremecer na libertação da descoberta. "já sei!"
"Já sabes o quê?"
O historiador bateu com a ponta do indicador no último rearranjo, atraindo para ali a atenção da interlocutora. "Não vês? Não 295
vês?"
Raquel olhou mais uma vez para a sequência de letras mas ela nada lhe dizia; apenas lia uma algaraviada sem sentido, como se os caracteres tivessem sido rabiscados ao acaso.
"Vejo o quê? Do que estás a falar?"
Tomás colou a caneta ao criptograma rearranjado e traçou uma sequência de setas, a primeira a descer da primeira letra da primeira linha para a primeira letra da segunda linha, a segunda seta da primeira letra da segunda linha para a segunda letra da segunda linha, a terceira seta a subir da segunda letra da segunda linha para a segunda letra da primeira linha e assim sucessivamente, num ziguezague constante entre as duas linhas que só terminou no ponto final.
G O s a n S E C H E R T A T O .
↓ ↑ ↓ ↑ ↓ ↑ ↓ ↑ ↓ ↑ ↓ ↑ ↓ ↑ ↓ ↑
O T a t + & A R O V S A N S M B
"Estás a ver?", perguntou com um brilho triunfante a cintilar-lhe nos olhos verdes. "Consegues ver agora?"
A agente da Interpol concentrou-se no rearranjo do criptograma.
"G...", balbuciou, aos solavancos, esforçando-se por acompanhar a sequência de setas. "O... T... O..."
Impacientando-se, Tomás fez um estalido com a língua que denunciava a sua agitação e, com um gesto frenético da mão, grafou a solução numa única linha, prescindindo assim das setas.
GOTOsatan+&SEARCHOVERSATANSTOMB.
Depois afastou o bloco de notas para contemplar o resultado. Não ficou muito satisfeito, pelo que reescreveu a solução respeitando os devidos 296
espaços.
GO TO satan + & SEARCH OVER SATAN’S TOMB.
Voilá!"
Raquel inclinou-se sobre o bloco de notas.
"Vai para satanás mais e procura sobre o túmulo de Satanás?", leu num tom interrogativo. Levantou os olhos para o português. "Que raio quer isto dizer?"
O rosto de Tomás refulgia de satisfação.
"São as instruções que nos conduzem ao DVD."
297
XLVI
Os homens sentados à volta da mesa evitavam olhar uns para os outros. De expressão tacituma e olhos perdidos no labirinto do problema, ponderavam a questão aparentemente sem serem capazes de encontrar uma solução convincente. Instalado à cabeça da mesa a presidir à reunião, Magus passeou devagar os olhos por eles, fitando cada um por sua vez, como se assim esperasse arrancar a algum o contributo decisivo. O
que via, porém, não lhe agradava.
"Já percebi", disse por fim, desviando o olhar dos seus subordinados.
"Vocês é que são os homens da segurança, mas tenho de ser eu a resolver este problema."
Balam, chefe da secção de segurança do Cultus Sathanas, pigarreou, como se a observação lhe tivesse sido dirigida e requeresse resposta.