A agente da Interpol amadureceu estes argumentos. Fugir à polícia ia contra todos os seus instintos. No fim de contas, ela própria era polícia. Como poderia desconfiar da sua gente? No entanto, o que Tomás lhe dizia fazia sentido. O DVD que todos procuravam devia comprometer gente muito importante; só assim se explicava que tivesse sido sequestrada por um comando de profissionais no seu próprio apartamento, todos em busca do material que Filipe tinha escondido. O próprio Filipe lhe falara da extrema sensibilidade da operação para a qual pedia a sua ajuda. Não era isso prova de que algo de importante se passava? Feitas as contas, o que eram uma simples agente da Interpol e um historiador desempregado ao pé dos poderosos interesses instalados que, pelos vistos, o tal DVD punha em causa?

Rendeu-se com um suspiro.

"O que sugere que façamos?"

Foi a vez de Tomás se pôr de pé, pronto para retomar a marcha.

"Temos de fugir."

Abriram a porta do apartamento, situado no bairro madrileno de Tres Olivos, e espreitaram para o interior. A sala estava mergulhada na sombra e apenas meia dúzia de pequenos focos de luz logravam atravessar as persianas fechadas, iluminando pelo caminho pontinhos 275

de poeira que flutuavam no ar, pareciam pó de diamante em suspensão. Cheirava a mofo e era evidente que o espaço estivera fechado durante muitos dias, provavelmente semanas.

"De quem é esta casa?"

"De uma colega da Interpol que foi fazer um trabalho em Haia", respondeu Raquel. "Só volta na próxima semana e pediu-me que lhe regasse as plantas."

O apartamento tinha de facto um toque feminino de bom gosto, com plantas junto às janelas e cortinados a condizer com o tecido do sofá e dos abat-jours. Nas paredes havia pequenos quadros e várias fotografias emolduradas estavam espalhadas pelos móveis a mostrar uma trintona magra sozinha ou com outras pessoas, talvez familiares. Tomás pegou numa delas.

"É ela?"

"Sim. Chama-se Marilú." Deteve-se e olhou para ele. "Porquê? É

bonita?"

Tomás levantou os olhos das molduras e apresentou-lhe o seu melhor sorriso.

"Não tanto como você."

O piropo arrancou uma gargalhada a Raquel.

"Ah, os Portugueses não resistem a um galanteio, não é?" "Não me diga que não gostou..."

A face da espanhola enrubesceu e os seus dedos enrodilharam-se no fio de prata que trazia ao pescoço.

"Não digo que não."

O historiador preparou-se para atacar com mais um piropo, não era todos os dias que se encontrava a sós num apartamento com uma beldade daquelas e preparou-se para lhe elogiar os olhos, mas a sua atenção ficou presa num objecto pousado sobre um móvel.

Um telefone fixo.

"Acha que o posso usar?", perguntou, deitando já a mão ao 276

aparelho. "A sua amiga importar-se-á?"

Raquel arqueou as sobrancelhas, surpreendida.

"O que diabo está a fazer?", quis saber. "Quer ligar a quem?"

O português pegava já no auscultador do telefone.

"Ao lar onde a minha mãe está internada", disse. "Tenho um problema sério para resolver. Cortaram-lhe a pensão e os donos do lar exigem que eu pague a..."

A agente da Interpol arrancou-lhe o telefone da mão e devolveu-o ao seu lugar.

"Não toque nisso!"

Tomás arregalou os olhos, estupefacto com a proibição. "Porquê?

Qual é o problema?"

"Não vê que eles devem ter o telefone do lar da sua mãe sob escuta?", perguntou. "Se ligar para lá, localizam-nos logo!"

"O quê?"

"É um procedimento elementar, Tomás. Sempre que andamos atrás de um fugitivo vigiamos os familiares. Quando o contacto é estabelecido... pimba, apanhamo-lo. Funciona sempre." Pousou o olhar no telefone fixo. "De certeza que estão a fazer o mesmo."

O português recuou um passo, desconcertado, olhando para o telefone como se ele emitisse radiações letais.

"Esta manhã liguei para o lar", disse. "Acha que... que..." A espanhola revirou os olhos luminosos.

"Está explicado!", exclamou. "Foi assim que souberam que você estava aqui em Madrid. Provavelmente descobriram a minha ligação ao Filipe e bastou-lhes somar dois e dois."

Estas palavras soaram como uma repreensão e Tomás baixou a cabeça, acabrunhado e preocupado. Sentia-se vexado por ter cometido um erro tão elementar, atraindo o inimigo para o apartamento de Raquel em Sesefia. Pior do que isso, no entanto, era o sentimento de impotência perante a situação da mãe. Havia um 277

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