— Sinto muito. — O conselheiro era frágil, vestido e penteado de forma elaborada, os dentes escurecidos. — Como sabe muito bem, sua alteza imperial já está noiva, para casar em breve, assim que alcançar a puberdade. E como também sabe muito bem, o xógum Nobusada já está comprometido com a filha de um nobre de Quioto.

— Lamento, mas os noivados de pessoas tão ilustres constituem uma questão de política de Estado, sob o controle do xogunato, e sempre tem sido assim. — Li era baixo, corpulento e inflexível.— O noivado do xógum Nobusada, a seu próprio pedido, foi cancelado.

— O que é lamentável, pois ouvi dizer que seria uma boa união.

— O xógum Nobusada e a princesa Yazu têm a mesma idade, doze anos. Por favor, comunique ao imperador que o tairo deseja informá-lo de que o xógum se sentirá honrado em aceitá-la como esposa. Podem casar quando ela tiver quatorze ou quinze anos.

— Consultarei o imperador, mas receio que seu pedido não será possível. Espero que o filho do céu seja orientado pelo céu numa decisão tão importante. Os gai-jin se encontram em nossos portões, o xogunato e a dinastia devem ser fortalecidos.

— A dinastia imperial não precisa ser fortalecida. Quanto ao Bakufu, a obediência aos desejos do imperador com certeza melhoraria a paz.

Li protestara em tom áspero:

— Os tratados tinham de ser assinados. As esquadras e as armas dos bárbaros em nos humilhar, independente do que digamos em público! Estamos indefesos. Fomos obrigados a assinar!

— Isso é problema e culpa do Bakufu e do xogunato... o imperador Komei desaprovou os tratados e não queria que fossem assinados.

— A política externa e qualquer política temporal, como o casamento, são uma atribuição exclusiva do xogunato. O imperador... — escolhera suas palavras com o maior cuidado. — ...é preeminente em todas as outras questões.

— “Outras questões” ? Até poucos séculos atrás, o imperador reinava com era o costume por milênios.

— Sinto muito, mas não vivemos há poucos séculos atrás.

Quando a proposta de Li, considerada por todos que se opunham ao Bakufu como um insulto à dinastia, se tornara conhecida, houve um clamor geral. Poucas semanas depois, ele fora assassinado pelos shishi, por sua arrogância, e o assunto caíra no esquecimento.

Até dois anos mais tarde, quando ela completara quatorze anos.

Embora ainda não fosse uma mulher feita, a princesa imperial Yazu já era uma poetisa consumada, sabia ler e escrever o chinês clássico, conhecia todos os rituais da corte necessários ao seu futuro e continuava apaixonada pelo príncipe e vice-versa.

Anjo, precisando reforçar o prestígio do xogunato, cada vez mais sob ameaça, procurara o príncipe conselheiro, que repetira o que já dissera antes. Anjo também repetira o que Li já dissera, mas acrescentara, para espanto de seu oponente:

— Agradeço por sua opinião, mas o chanceler imperial Wakura não concorda com essa posição.

Wakura, na casa dos quarenta anos, tinha muita influência na corte, embora não fosse da nobreza, que, desde o início, assumira a liderança do movimento xenofóbico entre os nobres de classe intermediária que se opunham aos tratados. Como chanceler, era um dos poucos que tinham acesso direto ao imperador. Dias depois, Wakura solicitara uma entrevista com a princesa.

— Fico satisfeito em lhe comunicar que o filho do céu pede que concorde em anular seu noivado com o príncipe Sugawara, e em vez disso case com o xógum Nobusada.

A princesa Yazu quase desmaiara. Dentro da corte, um pedido imperial era uma ordem.

— Deve haver algum equívoco! O filho do céu opôs-se a essa sugestão arrogante, por motivos óbvios, há dois anos. Você também se opôs, e o mesmo aconteceu com todos... Não posso acreditar que a divindade me peça agora uma coisa tão horrível!

— Não é horrível e está sendo pedida.

— Mesmo assim, eu recuso... recuso terminantemente!

— Sinto muito, mas não pode recusar. Permita-me explicar...

— Não, não permito! Recuso, recuso, recuso!

No dia seguinte, outra entrevista solicitada e recusada; depois outra e mais outra. A princesa se mantivera inflexível.

— Não!

— Sinto muito, alteza — dissera-lhe sua matrona principal, desnorteada, mas o chanceler imperial solicita de novo um momento para explicar as razões do pedido.

— Não falarei com ele! Diga-lhe que quero conversar com meu irmão.

— Sinto muito, alteza, mas é meu dever lembrá-la de que o filho do céu deixou de ter amigos e parentes quando ascendeu ao trono.

— Eu... claro, claro. Por favor, desculpe-me. Sei disso. Estou cansadademais, o que me levou a falar assim.

Mesmo dentro da corte, só a esposa do imperador, as consortes, mãe, filhos, irmãos e irmãs, mais dois ou três conselheiros tinham permissão para fitá-lo no rosto sem permissão. Afora esses poucos íntimos, era proibido. ELE era divino.

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги