Como todos os imperadores antes, a partir do momento em que completara os rituais que uniam misticamente seu espírito ao do imperador recém-falecido, seu pai, como este também fizera, e todos os antepassados, numa linhagem ininterrupta até Jimmu-Tennu, Komei deixara de ser mortal e se tornara divindade, o guardião dos símbolos sagrados — o orbe, a espada e o espelho —, o filho do céu.

— Por favor, desculpe — dissera Yazu, humilde, consternada por seu sacrilégio — Lamento muito. Por favor, peça ao lorde chanceler que solicite ao filho do céu que me conceda um momento do seu tempo.

Agora, através das lágrimas, Yazu recordou como, muitos dias depois, prostrara-se de joelhos diante do imperador e da onipresente multidão de cortesãos, todos de cabeça baixa. Mal o reconhecera em seus trajes formais... e fora a primeira vez em que o encontrara há meses. Suplicara e implorara, numa litania chorosa, usando a indispensável linguagem da corte, que mal era entendida pelos forasteiros, até se sentir exausta.

— Alteza imperial, não quero sair de casa. Não quero ir para aquele lugar horrível chamado Iedo, no outro lado do mundo. Peço permissão para dizer que somos do mesmo sangue, não belipotentados arrivistas de Iedo...

Também sentira vontade de gritar: Não descendemos de camponeses, que não sabem falar direito, não se vestem direito, não comem direito, não se comportam direito, não são capazes de ler e escrever direito, e fedem a daikon... mas não ousara. Em vez disso, balbuciara:

— Suplico que me deixe ficar.

— Primeiro, escute por favor, com toda atenção e calma, como convém a uma princesa imperial, o que o lorde chanceler Wakura tem a dizer.

— Obedecerei, alteza imperial.

— Segundo, não permitirei que isso seja feito contra a sua vontade. Terceiro, volte no décimo dia e tornaremos a conversar. Vá agora, Yazu-chan.

Fora a primeira vez em sua vida que o irmão a chamara pelo diminutivo. E, assim, ela escutara Wakura.

— As razões são complicadas, princesa.

— Estou acostumada a complicações, chanceler.

— Muito bem. Em troca do noivado imperial, o Bakufu concordou com a permanente expulsão de todos os gai-jin e em cancelar os tratados.

Mas Nori Anjo disse que isso é impossível!

— É verdade. Neste momento. Mas ele também concordou em iniciar imediatamente a modernização do exército e em criar uma marinha invencível. Dentro de sete ou oito anos, talvez dez, ele promete que seremos bastante fortes para impor nossa vontade.

— Ou em vinte, cinqüenta ou cem anos! Os xóguns Toranagas são mentirosos históricos e não merecem a menor confiança. Há séculos que mantêm o imperador confinado, usurparam sua herança. Não se pode confiar neles.

— Pois agora o imperador está persuadido a confiar. A verdade, princesa, é que não dispomos de poder temporal sobre eles.

— Neste caso, eu seria uma tola se me entregasse como refém.

— Sinto muito, mas eu ia acrescentar que seu casamento levaria a uma solução dos problemas entre o imperador e o xogunato, que é essencial para a tranquilidade do Estado. O xogunato passará a escutar o conselho imperia! E obedecerá aos desejos imperiais.

— Se eles se tornassem filiais. Mas como meu casamento faria com que isso acontecesse?

— Por seu intermédio, a corte poderia interferir e até mesmo controlar esse jovem xógum e seu governo.

O interesse de Yazu fora atiçado.

— Controlar? Por conta do imperador?

— Isso mesmo. Como poderia esse menino... comparado com sua alteza, ele não passa de uma criança... como poderia esse menino guardar qualquer segredo de sua alteza? Seria impossível. A esperança do filho do céu é que sua irmã se torne sua intermediária. Como esposa do xógum, saberia de tudo, e como é uma pessoa extraordinária, muito em breve teria em mãos todas as meadas do poder do Bakufu, através desse xógum. Desde o terceiro xógum Toranaga, não houve mais nenhum forte. Não teria perfeitas condições de exercer o verdadeiro poder?

A princesa pensara a respeito por um longo momento.

— Anjo e o xogunato não são tolos. Já devem ter deduzido isso.

— Eles não a conhecem, alteza. Acreditam que é apenas um junco que pode ser torcido e moldado, ao capricho deles, assim como o menino Nobusada. Por que outro motivo o escolheriam? Querem o casamento, sem dúvida, para reforçar seu prestígio, para aproximar a corte e o xogunato. E acham que uma jovem como sua alteza seria um fantoche dócil para subverter a vontade imperial.

— Sinto muito, mas pede demais a uma mulher. Não quero sair de casa nem renunciar a meu príncipe.

— O imperador pede que faça isso.

— Mais uma vez, o xogunato obriga-o a negociar, quando deveria apenas obedecer — comentara ela, amargurada.

— O imperador pede que o ajude a fazer com que eles obedeçam.

— Perdoe-me, por favor, mas não posso.

— Há dois anos, no ano terrível — continuara Wakura, sem perder a calma. — no ano da fome, o ano em que Li assinou os tratados, alguns estudiosos do Bakufu vasculhavam a história, à procura de precedentes de imperadores depostos.

Yazu ficara aturdida.

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