— Não é só a dor que o deixa assim. É também o medicamento, ou sua falta e a correspondência de hoje. Recebeu uma carta de sua mãe, não é?
— Recebi — respondera Malcolm, em total angústia, enquanto sentava na beira da cama, meio vestido. — Ela... ora, ela está furiosa. Nunca a vi tão irritada Opõe-se totalmente ao meu noivado, ao casamento... se eu lhe desse ouvidos acreditaria que Angelique é o demônio encarnado. Ela...
As palavras saíram aos borbotões.
— Ela ignorou minha carta, e disse... Escute só isso:
— Quando eu permitir, Malcolm, você fará o que ela quer?
— Em relação a Angelique, não. Nada do que ela diz tem importância, absolutamente nada. É óbvio que não leu a minha carta, não me dá a menor atenção. O que posso fazer?
Hoag dera de ombros.
— O que já decidiu: vai ficar noivo e depois casará, quando chegar o momento oportuno. E vai melhorar a cada dia. Precisará de bastante repouso, sopas suculentas, muito mingau, e deve se abster dos medicamentos para dormir e contra a dor. Pelas próximas duas semanas, continuará aqui, depois voltará e enfrentará... — Hoag fizera uma pausa, oferecendo um sorriso gentil. — ...o futuro com toda confiança.
— Tenho muita sorte em tê-lo como meu médico.
— E eu tenho muita sorte em tê-lo como meu amigo.
— Recebeu uma carta dela também?
— Recebi. — Uma risada seca. — Agora estou me lembrando.
— E o que dizia? Hoag revirara os olhos.
— Já não é suficiente?
— É, sim. Obrigado.
Agora, observando Angelique dançar, o centro de uma admiração universa, e também de desejo, os seios em grande parte revelados, como era a moda, os tornozelos esguios atraindo os olhos, à procura de mais alguma coisa sob as saias de seda, Malcolm Struan sentiu uma ereção. Graças a Deus por isso, pensou e muito de sua raiva se dissipando, pelo menos essa parte ainda funciona... mas só que não conseguirei esperar até o Natal. Não há a menor possibilidade.
Era quase meia-noite agora e ela tomou um gole de champanhe, escondeu o rosto por trás do leque, sacudindo-o com a habilidade da experiência. Depois, entregou o copo a alguém, como se desse um presente, pediu licença e voltou para sua cadeira, ao lado de Struan. Ali perto, havia um grupo animado, formado por Seratard, Sir William, Hoag, outros ministros, Poncin.
— Ah,
— Claro que sim.
Ele não se sentia bem, mas tentava disfarçar. Hoag observou-o. Em francês, Angelique acrescentou:
— André, onde você se escondeu durante os últimos dias? — Ela fitou-o por cima do leque. — Se estivéssemos em Paris, eu seria capaz de jurar que entregou seu coração a uma nova namorada.
Poncin respondeu em tom jovial:
— Apenas trabalho,
— Ah, é muito triste! Paris no outono é maravilhosa, quase tão deslumbrante quanto na primavera. Vou lhe mostrar toda a cidade, Malcolm. Vamos passar uma temporada lá, não é?
Angelique estava de pé, a seu lado, e sentiu Malcolm passar o braço por sua cintura. Pousou o braço de leve em seu ombro, enfiou os dedos por seus cabelos compridos. O contato a agradava, assim como o rosto bonito de Malcolm, suas roupas, e o anel que ele lhe dera naquela manhã, um diamante enorme, cercado por outros. Olhou para o anel, virando-o para um lado e outro, admirando-o, especulando quanto valia.
— Ah, Malcolm, tenho certeza de que você vai adorar Paris. É realmente maravilhosa na temporada. Podemos ir?
— Por que não, se você quiser?
Ela suspirou, os dedos discretamente acariciando o pescoço de Malcolm, e disse de repente, como se um pensamento súbito lhe ocorresse:
— Talvez,
— Dança muito bem,