— Não é só a dor que o deixa assim. É também o medicamento, ou sua falta e a correspondência de hoje. Recebeu uma carta de sua mãe, não é?

— Recebi — respondera Malcolm, em total angústia, enquanto sentava na beira da cama, meio vestido. — Ela... ora, ela está furiosa. Nunca a vi tão irritada Opõe-se totalmente ao meu noivado, ao casamento... se eu lhe desse ouvidos acreditaria que Angelique é o demônio encarnado. Ela...

As palavras saíram aos borbotões.

— Ela ignorou minha carta, e disse... Escute só isso: Você perdeu o juízo? Seu pai não tem seis semanas de morto, você ainda não completou vinte e um anos, essa mulher está atrás do seu dinheiro e de nossa companhia, é a filha de um fugitivo que foi à bancarrota, sobrinha de outro criminoso e ainda por cima, que Deus nos ajude, católica e francesa! Você enlouqueceu? Diz que a ama? Bobagem! Está enfeitiçado! Vai parar com esse absurdo. Vai-parar-com-esse-ab-surdo! Ela o enfeitiçou. É evidente que você não tem condições mentais de dirigir a Struan! Deve voltar sem essa pessoa assim que o Dr. Hoag permitir.

— Quando eu permitir, Malcolm, você fará o que ela quer?

— Em relação a Angelique, não. Nada do que ela diz tem importância, absolutamente nada. É óbvio que não leu a minha carta, não me dá a menor atenção. O que posso fazer?

Hoag dera de ombros.

— O que já decidiu: vai ficar noivo e depois casará, quando chegar o momento oportuno. E vai melhorar a cada dia. Precisará de bastante repouso, sopas suculentas, muito mingau, e deve se abster dos medicamentos para dormir e contra a dor. Pelas próximas duas semanas, continuará aqui, depois voltará e enfrentará... — Hoag fizera uma pausa, oferecendo um sorriso gentil. — ...o futuro com toda confiança.

— Tenho muita sorte em tê-lo como meu médico.

— E eu tenho muita sorte em tê-lo como meu amigo.

— Recebeu uma carta dela também?

— Recebi. — Uma risada seca. — Agora estou me lembrando.

— E o que dizia? Hoag revirara os olhos.

— Já não é suficiente?

— É, sim. Obrigado.

Agora, observando Angelique dançar, o centro de uma admiração universa, e também de desejo, os seios em grande parte revelados, como era a moda, os tornozelos esguios atraindo os olhos, à procura de mais alguma coisa sob as saias de seda, Malcolm Struan sentiu uma ereção. Graças a Deus por isso, pensou e muito de sua raiva se dissipando, pelo menos essa parte ainda funciona... mas só que não conseguirei esperar até o Natal. Não há a menor possibilidade.

Era quase meia-noite agora e ela tomou um gole de champanhe, escondeu o rosto por trás do leque, sacudindo-o com a habilidade da experiência. Depois, entregou o copo a alguém, como se desse um presente, pediu licença e voltou para sua cadeira, ao lado de Struan. Ali perto, havia um grupo animado, formado por Seratard, Sir William, Hoag, outros ministros, Poncin.

— Ah, monsieur André, toca muito bem. Não concorda, Malcolm querido?

— Claro que sim.

Ele não se sentia bem, mas tentava disfarçar. Hoag observou-o. Em francês, Angelique acrescentou:

— André, onde você se escondeu durante os últimos dias? — Ela fitou-o por cima do leque. — Se estivéssemos em Paris, eu seria capaz de jurar que entregou seu coração a uma nova namorada.

Poncin respondeu em tom jovial:

— Apenas trabalho, mademoiselle. Depois, em inglês, ela comentou:

— Ah, é muito triste! Paris no outono é maravilhosa, quase tão deslumbrante quanto na primavera. Vou lhe mostrar toda a cidade, Malcolm. Vamos passar uma temporada lá, não é?

Angelique estava de pé, a seu lado, e sentiu Malcolm passar o braço por sua cintura. Pousou o braço de leve em seu ombro, enfiou os dedos por seus cabelos compridos. O contato a agradava, assim como o rosto bonito de Malcolm, suas roupas, e o anel que ele lhe dera naquela manhã, um diamante enorme, cercado por outros. Olhou para o anel, virando-o para um lado e outro, admirando-o, especulando quanto valia.

— Ah, Malcolm, tenho certeza de que você vai adorar Paris. É realmente maravilhosa na temporada. Podemos ir?

— Por que não, se você quiser?

Ela suspirou, os dedos discretamente acariciando o pescoço de Malcolm, e disse de repente, como se um pensamento súbito lhe ocorresse:

— Talvez, chéri, pudéssemos passar a lua-de-mel em Paris... dançaríamos pela noite afora.

— Dança muito bem, mademoiselle, em qualquer cidade — comentou Hoag, suado, desconfortável nas roupas apertadas. — Eu gostaria de poder dizer a mesma coisa a meu respeito. Posso suge...

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