O jovem soltou um grito quando o pé do oficial, duro como ferro, atingiu suas partes mais sensíveis, duas vezes. Os jardineiros tremiam, apavorados.
— Ele não... está aqui...
Outra vez o golpe impiedoso. Numa agonia desesperada, impotente, fora de si, Joun apontou para um rapaz, que se prostrou no chão, clamando sua inocência.
— Façam-no calar! — berrou o oficial. — Levem-no à presença do juiz e, de lá, para a prisão! Crucifiquem o canalha! Levem todos, pois são culpados de esconder Hiraga!
Os jardineiros foram arrastados dali, aos gritos, o rapaz berrando que vira Hiraga antes, perto da casa, e que mostraria o lugar, se o deixassem, mas ninguém lhe prestou atenção. Não demorou muito para que todos os gritos fossem reprimidos, brutalmente.
O oficial limpou o suor do rosto, convencido de que cumprira suas ordens. Tomou um gole de água de uma garrafa, bochechou e cuspiu, para limpar a boca, depois bebeu, satisfeito.
Ele estremeceu. A doença das pústulas! Uma doença
Não era possível que aquele jardineiro fosse um famoso
A vida é curiosa. Odeio os
Hiraga escondeu-se em algum lugar. Revistei tudo com o maior cuidado Portanto, ele se disfarçou. De que maneira? Como uma árvore? O quê?
Dentro dos muros, os preparativos para a partida continuavam. A bandeira foi arriada. Os cavaleiros montaram. As macas foram levadas para uma carroça. Os portões se abriram, os soldados montados entraram em formação, liderados pelo
As bandagens! A revelação aflorou de repente na mente do oficial dos samurai
Vou mandar segui-lo.
19
Terça-feira, 14 de outubro:
A festa de noivado estava no auge, sob os lampiões a óleo que iluminavam a sala principal apinhada do clube... todo o prédio requisitado por Malcolm Struan e ornamentado para sua comemoração. Todos os membros respeitáveis da colônia haviam sido convidados e se encontravam presentes, assim como todos os oficiais que podiam ser dispensados da esquadra e do exército... e lá fora, na High Street, patrulhas das duas armas se achavam preparadas para controlar os bêbados e indesejáveis.
Angelique nunca parecera mais deslumbrante — crinolina, chapéu com plumas de ave-do-paraíso e um ofuscante anel de noivado. A dança era uma valsa vibrante, de Johann Strauss, o Jovem. Acabara de chegar de Viena, pela mala diplomática, e André Poncin a tocava ao piano com a maior animação, acompanhado por alguns músicos da banda da marinha, em uniforme de gala para a ocasião. O parceiro de Angelique era Settry Pallidar; seu anúncio de que representaria o exército fora recebido com gritos de aprovação e tremenda inveja.
Victoria Lunkchurch e Mabel Swann também dançavam, desta vez com Sir William e Norbert Greyforth, seus cartões de dança lotados desde o momento em que a festa fora anunciada. Apesar de todo o volume, as duas eram excelentes dançarinas. Também usavam vestidos de crinolina, só que não podiam se comparar com o de Angelique, nem na riqueza, nem no decote.
— Você é um miserável sovina, Barnaby — sibilou Victoria ao marido. — tambén queremos roupas novas, nem que isso custe todo o seu dinheiro! E também queremos penantes como o dela!
— Querem o quê?
— Você sabe muito bem o quê! Penantes... chapéus!
O chapéu emplumado de Angelique fora o golpe de misericórdia para as duas.
É a guerra, ela contra nós!
Apesar de tudo, a popularidade das duas no baile superou a inveja e dançavam com a maior alegria.
— Miserável sortudo! — murmurou Marlowe, olhando para seu rival.
A túnica azul do uniforme naval reluzia com os alamares dourados adicionais de um ajudante-de-ordens, calça branca de seda e sapatos pretos com fivelas prateadas.