— Mas só com Taira, porque você terá trabalho extra. Lembre-se de que ele pode ser um peixe graúdo para você, Fujiko, um cliente a longo prazo, muito melhor que Kant-er-bury-san, se tomarmos cuidado, e se você o agradar. Frenchy diz que ele é um homem importante, por isso deve se empenhar em agradá-lo. Fale apenas japonês, nada de pidgin, torne-se uma mestra, encoraje-o, lembre-se de que ele é ridiculamente tímido e não sabe de nada. Nunca deve mencionar Kant-er-bury. Vamos fingir que você terá de se ausentar por alguns dias... mas não se preocupe. Já tenho dois clientes para você amanhã, um gai-jin à tarde, uma pessoa civilizada à noite...

Com um cliente generoso por um ou dois anos, eu poderia pagar minhas dívidas num instante e a vida seria muito melhor do que ter de aceitar qualquer cliente disponível, pensou Fujiko. Depois, contente, abandonou o presente, como sempre fazia quando se encontrava com um cliente, e projetou-se para o futuro, onde vivia feliz com seu rico marido fazendeiro e quatro ou cinco filhos. Podia contemplar a casa, em meio a vários arrozais, com os brotos verdes do plantio de inverno ou primavera prometendo mais uma colheita abundante, a sogra gentil, satisfeita com ela, um ou dois bois atrelados a um arado, flores no pequeno jardim, e...

— Ah, Fujiko, obrigado! Você é maravilhosa!

Ela se aninhou ainda mais, murmurou que ele era forte e viril.

— O quê? — balbuciou Tyrer, sonolento. Ela respondeu com um movimento íntimo da mão, e ele se contorceu. — Não, Fujiko, por favor, primeiro dormir. Não... por favor, mais tarde...

— Ah, mas um homem forte como você... — insistiu ela, reprimindo seu tédio e continuando, submissa.

Ori bocejou e tirou o olho do buraco.

— Já vi o suficiente — sussurrou ele. — Chocante.

— Concordo. — Hiraga também manteve a voz baixa. — Terrível. O desem-penho de Fujiko foi o pior que já testemunhei. Baka!

— Se eu fosse Taira, exigiria meu dinheiro de volta.

— Concordo. Baka! Fujiko não conseguirá deixá-lo pronto de novo por horas, e quanto a ele... apenas a Primeira Posição uma vez e ainda falam de dez arremetidas, e tudo acaba, Sobre a Lua, como um pato. Ori teve de levar a mão à boca para reprimir o riso. Depois, com extremo zelo, ajeitou pequenos pedaços de papel para tapar os buracos que haviam feito no canto distante da tela de shoji. Juntos, esgueiraram-se entre os arbustos, passaram pelo portão secreto na cerca e voltaram à residência de Ori.

Saquê!

Meio adormecida, a criada pôs a bandeja na frente dos dois, serviu e se afastou ainda tendo dificuldade para não olhar para suas cabeças. Eles brindaram um com o outro, tornaram a encher os copos, o cômodo pequeno e agradável iluminado por velas, com os futons já arrumados no aposento contíguo. As espadas estavam e prateleiras baixas, laqueadas. Raiko violara a regra da Yoshiwara que proibia armas na área porque eles eram shishi, por causa do retrato de Hiraga e implorou a ambos, que haviam jurado por Sonno-joi, que não usariam as armas contra alguém na casa ou qualquer hóspede, e apenas em defesa.

— Não posso acreditar que Taira se deixasse enganar pelo simulado momento com os deuses, Hiraga, um depois do outro, daquele jeito! A encenação dela foi péssima. Será que ele é mesmo tão estúpido assim?

— Obviamente. — Hiraga riu, esfregou a cabeça, atrás e nos lados, com extremo vigor. — Com uma arma daquele tamanho, ele deveria ter feito com que Fujiko gritasse de verdade... todos os gai-jin são assim?

— Quem se importa... no caso dele, é um desperdício.

— Sem a menor sutileza, Ori! Talvez eu devesse arrumar para ele um livro de travesseiro, como uma noiva virgem, hem?

— Melhor matá-lo e incendiar a colônia.

— Seja paciente. Ainda faremos isso. Há bastante tempo.

— Ele é um alvo perfeito e é mais uma oportunidade perfeita — insistiu Ori, uma certa rispidez se insinuando em sua voz.

Hiraga observou-o, toda a sua satisfação desaparecendo no mesmo instante.

— Tem toda razão, mas não agora. Ele é importante demais.

— Você mesmo disse que se os enfurecêssemos bastante, eles bombardeariam Iedo, o que seria maravilhoso para a nossa causa.

— É verdade, mas tempos tempo. — Hiraga não deixava transparecer sua preocupação, pois queria apaziguá-lo, vê-lo sob controle. — Taira vem respondendo a todas as minhas perguntas. Por exemplo, ninguém nos contou que os gai-jin lutam entre si como cães selvagens, ainda pior que os daimios antes de Toranaga... os holandeses esconderam isso de nós, não é?

— São todos mentirosos e bárbaros.

— Sei disso, mas deve haver centenas de informações assim, que vão nos indicar a maneira como teremos de enfrentá-los... e dominá-los. Precisamos aprender tudo, Ori, e depois, quando integrarmos o novo Bakufu, lançaremos os alemães contra os russos, contra os franceses, contra os ingleses, contra os americanos...

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