— Não há barras nas janelas, nem na porta lateral, pelo que pude ver. Durante o dia inteiro ele especulara o que fazer com Ori. Se Ori entrasse na casa e matasse a mulher, poderia viver ou morrer, mas de qualquer forma toda colônia ficaria em tumulto e descarregaria seu ódio nos japoneses mais próximos.

— Concordo que ela é um alvo correto para Sonno-joi, Ori, mas ainda não, pelo menos enquanto eu continuar a ser aceito por eles e estiver descobrindo seu segredos.

— Um alvo tão perfeito deve ser atacado de imediato. Katsumata disse que hesitar é perder. Podemos arrancar esses segredos dos livros.

— Já disse que não concordo.

— Na mesma ocasião em que eu a matar, incendiamos a Yoshiwara e a colônia também ficará em chamas. Nós três aproveitaremos a confusão para escapar. Faremos isso daqui a três dias.

— Não.

— Eu disse sim! Dois ou três dias, não mais do que isso!

Hiraga pensou a respeito, avaliou a posição de Ori. Com o maior cuidado. E frieza. Para tomar de novo a mesma decisão:

— Está proibido.

A determinação categórica deixou Ori humilhado. Pela segunda vez em poucos dias. E, mais uma vez, por causa da mulher.

Não havia qualquer som na sala agora. Ambos mantinham-se impassíveis. Podiam ouvir o vento lá fora. De vez em quando, o papel oleado do shoji estalava. Ori tomou um gole de saquê, fervendo de raiva, numa determinação inexorável, mas nada deixando transparecer, sabendo que se tivesse os braços tão fortes quanto antes, com a mesma agilidade, estaria se aprontando para saltar em busca de sua espada, a fim de se defender do ataque, que seria inevitável, a menos que se submetesse.

Ora, não importa. Num confronto direto, mesmo que eu me encontrasse em perfeitas condições, Hiraga sempre conseguiria me acertar primeiro. Assim, ele deve ser afastado de meu caminho por outra forma.

Com uma vontade firme, a de sobrepujar o novo inimigo que estava determinado a frustrá-lo, Ori jurou que não seria o primeiro a romper o silêncio, e assim se humilhar. A pressão entre os dois foi aumentando. Em segundos, tornou-se insuportável, aproximando-se do auge...

Passos correndo. A porta de shoji foi aberta. Raiko apareceu, muito pálida.

— Há patrulhas de vigilantes do Bakufu na ponte e no portão. Vocês devem partir. Depressa!

Os dois ficaram consternados, esquecendo todo o resto. Foram pegar suas espadas.

— Eles virão à Yoshiwara? — perguntou Ori.

— Virão, em grupos de dois e três. Já fizeram isso antes. Evitam os gai-jin, mas não a nós.

A voz de Raiko tremia tanto quanto as mãos.

— Há uma saída segura através do arrozal?

— Não, Ori — respondeu Hiraga por ela, pois no dia anterior examinara o como uma possível rota de fuga. — A terra é plana, sem qualquer cobertura. Por uma ri. Se estão bloqueando a ponte e o portão, devem vigiar esse lado também.

— E o que me diz da área gai-jin, Raiko?

— A colônia? Eles nunca estiveram lá. Vocês de...

Ela virou-se, ainda mais assustada. Os dois homens desembainharam suas espadas pela metade, enquanto uma criada se aproximava, muito pálida.

— Estão vindo para cá, fazendo uma revista de casa em casa — balbuciou.

— Avise às outras.

A criada saiu correndo. Hiraga tentou pôr o cérebro para funcionar.

— Raiko, onde fica seu lugar seguro, seu porão secreto?

— Não temos nenhum — respondeu ela, retorcendo as mãos.

— Mas deve haver um, em algum lugar! Abruptamente, Ori adiantou-se e Raiko recuou, apavorada.

— Onde fica o caminho secreto para a colônia? Depressa!

Raiko quase desmaiou quando ele mudou a posição da mão no cabo da espada Embora Ori não a ameaçasse, ela sabia que se encontrava à beira da morte.

— Eu... para a colônia? Não tenho certeza, mas há muitos anos fui informada... eu tinha até esquecido. Não tenho muita certeza, mas, por favor, sigam-me sem fazer barulho.

Ficaram bem perto dela, embrenhando-se pelas moitas, indiferentes aos galhos que se empenhavam em lhes bloquear a passagem, a lua ainda clara, no alto do céu, entre as nuvens tangidas pelo vento. Quando chegou a uma parte oculta da cerca, entre sua estalagem e a seguinte, Raiko pressionou um nó na madeira. Um trecho da cerca se abriu, rangendo, as dobradiças de madeira meio emperradas da falta de uso.

Sem perturbar as pessoas que ali estavam, Raiko atravessou aquele jardim até o outro lado. Passou por um portão para outro jardim, deu a volta até os fundos, pulou uma estrutura baixa, de tijolos, à prova de fogo, que servia para guardar mercadorias valiosas, e se encaminhou para os tanques d’água, que eram enchidos em parte pela chuva, em parte por linhas de cules carregando baldes todos os dias. Ofegante, Raiko apontou a tampa de madeira de um dos poços.

— Acho... acho que é ali.

Hiraga empurrou a tampa para o lado. Havia toscas barras de ferro, enferrujadas, fincadas na parede de alvenaria, para servir de apoio aos pés e mãos, e nenhum sinal de água lá embaixo. Ainda apavorada, ela sussurrou:

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