Hiraga estremeceu, ao recordar o pouco que Tyrer lhe dissera sobre a tal guerra civil, as batalhas e baixas, todas as armas modernas, com centenas de milhares de homens armados em combate, e a inacreditável vastidão das terras dos gai-jin.

— Esta noite ele disse que a marinha inglesa domina os oceanos do mundo e pela lei deles é duas vezes maior que as duas marinhas seguintes juntas, com centenas de navios de guerra, milhares de canhões.

— Mentiras. Exageros para assustá-lo. Ele e todos os outros querem nos intimidar... e ele também quer os nossos segredos!

— Só dou a ele o que acho que deve saber — protestou Hiraga, irritado. — Ori temos de aprender tudo o que pudermos sobre eles! Esses cães conquistaram a maior parte do mundo... humilharam a China, incendiaram Pequim, e este ano os franceses se tornaram senhores da Cochinchina e vão colonizar o Camboja.

— É verdade, mas os franceses jogaram príncipes nativos contra o príncipes nativos, como os britânicos na índia. Mas aqui é o Japão. Somos diferentes... esta é a terra dos deuses. Jamais, nem mesmo com todos os canhões do mundo, eles serão capazes de nos conquistar!

O rosto de Ori contorceu-se de um jeito estranho, e ele acrescentou:

— Podem até seduzir alguns daimios para o seu lado, mas o resto do povo japonês haverá de massacrá-los.

— Não sem canhões e conhecimentos.

— Sem canhões, sim, Hiraga-san!

Hiraga deu de ombros e serviu saquê para ambos. Havia muitos shishi que partilhavam o fervor de Ori... e esqueciam Sun-tzu: Conheça seu inimigo como conhece a si mesmo, e ganhará cem batalhas.

— Torço para que você esteja certo. Enquanto isso, porém, descobrirei o máximo que puder. Ele me prometeu que amanhã vai mostrar um mapa do mundo... chamou-o de “atlas”.

— Como sabe que não será falso, inventado?

— Não é provável, eles não iriam falsificar um só para me mostrar. Talvez eu consiga até arrumar uma cópia, podíamos mandar traduzir... e também alguns de seus livros escolares. — O excitamento de Hiraga era cada vez maior. — Taira disse ainda que eles têm novas habilidades na arte das contas, ensinadas nas escolas, e medidores de astronomia chamados lon-gi-tude e la-ti-tude... — Ele pronunciou as palavras em inglês com dificuldade. —... que de alguma forma os guiam com fantástica precisão nos oceanos, a mil ri da terra. Baka que eu saiba tão pouco! Baka que eu não possa ler inglês!

— Mas vai aprender — declarou Ori. — Eu nunca saberei. Você será parte do nosso novo governo... eu nunca serei.

— Por que diz isso?

— Idolatro Sonno-joi. Já pensei no meu poema da morte e o falei... para Shorin, na noite do ataque. Baka que ele tenha morrido tão cedo.

Ori esvaziou seu copo, despejou as últimas gotas e pediu outra garrafa. Tornou a fitar Hiraga, os olhos contraídos.

— Ouvi dizer que lorde Ogama prometeu perdoar qualquer shishi de Choshu que renunciar publicamente a Sonno-joi.

Hiraga confirmou com um aceno de cabeça.

— Meu pai me escreveu para dizer isso. Nada significa para nós... para shishi de Choshu.

— Há um rumor de que Ogama controla os portões, excluindo todos os outros... e até que há novos combates entre suas tropas e os Satsumas.

— Muitos daimios se extraviam de vez em quando — comentou Hiraga calmamente.

Não lhe agradava o rumo da conversa; já havia notado que Ori se tornava cada vez mais belicoso. Raiko tornara a adverti-lo naquela noite de que Ori era um vulcão fumegante.

— Todos concordamos, Ori, não temos muito tempo, que não ficaríamos sujeitos aos feitos e malfeitos de nossos líderes hereditários.

— Se Ogama controla os portões, pode devolver o poder ao imperador e converter Sonno-joi em realidade.

— Talvez ele o faça, talvez até já o tenha feito.

Ori esvaziou o copo.

— Terei o maior prazer em deixar Iocoama. Há veneno no ar. Acho melhor você ir para Quioto comigo. Este ninho de mentirosos pode infeccioná-lo.

— Você estará mais seguro em Quioto sem a minha companhia. Mesmo mudando os cabelos, ainda posso ser reconhecido.

Uma súbita rajada de vento assoviou pelo telhado de colmo e sacudiu uma janela. Eles olharam por um instante e logo voltaram a beber. O saquê os relaxara, mas não dissipara as emoções, os pensamentos de morte, com o cerco cada vez mais apertado, a emboscada planejada contra o xógum Nobusada, Shorin e Sumomo e, acima de tudo, o que fazer com a moça gai-jin? Hiraga ainda não a mencionara, nem Ori fizera qualquer pergunta a respeito, mas ambos esperavam, contornando a questão central, impacientes, indecisos. Foi Ori quem rompeu o silêncio:

— Quando Akimoto chegar, amanhã, o quanto você vai lhe contar?

— Tudo o que sabemos. Ele viajará com você para Quioto.

— Não. É melhor que ele fique, pois você precisará de um guerreiro aqui.

— Por quê?

Ori deu de ombros.

— Dois podem fazer mais do que um. E agora me diga onde ela está. Hiraga descreveu o lugar. Com precisão.

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