— Vestido com roupas cerimoniais, que aprenderá a usar, em oito dias, tempo mais do que suficiente. Ele parece com um samurai agora, embora não aja como tal. Por sorte, não é estúpido, e se sente tão assustado que fará tudo o que ordenarmos. Mais importante ainda, ele nos dirá depois a verdade, que anda escassa por aqui.

Yoshi viu Anjo ficar vermelho. Os outros fingiram não perceber.

— E que mais, Yoshi-san?

— Realizaremos a reunião aqui no castelo.

— Inadmissível! — gritou Anjo.

— Claro que primeiro vamos propor Kanagawa — explicou-lhe Yoshi, exasperado — e depois nos permitiremos concordar em recebê-los aqui.

— Inadmissível! — insistiu Anjo, com a concordância dos outros.

— Com o castelo como isca, podemos protelar de novo, talvez até por mais um mês... a curiosidade deles vai prevalecer... e ao final só permitimos o acesso a uma área externa. Por que não o castelo? Todos os líderes gai-jin, por sua livre e espontânea vontade, ao nosso alcance? Podemos tomá-los como reféns, sua presença aqui nos dá uma dúzia de possibilidades de envolvê-los ainda mais.

Todos o fitaram, aturdidos.

— Tomá-los como reféns?

— Uma possibilidade, entre muitas — explicou Yoshi, paciente, sabendo que precisava de aliados na luta iminente.— Devemos usar astúcia e cordões de seda, a própria fraqueza dos gai-jin contra eles, não a guerra... até que possamos igualar com suas frotas.

— E até lá? — indagou Adachi. O homenzinho rotundo era o mais rico de todos e sua linhagem Toranaga comparável à de Yoshi. — Acredita realmente que devemos negociar com esses cães até termos esquadras equivalentes às deles?

— Ou canhões bastante grandes para mantê-los à distância de nossas praias. Só precisamos de um ou dois sacos de ouro para que eles se atropelem no empenho de nos vender os meios com que os expulsaremos de nossas águas. — Yoshi fez uma pausa, a expressão se tornando sombria. — Ouvi o rumor de que alguns emissários de Choshu já estão tentando comprar fuzis dos gai-jin.

— Aqueles cães! — exclamou Toyama, furioso. — Sempre Choshu. Quanto mais cedo os esmagarmos, melhor.

— E Satsuma também — murmurou Anjo, com a concordância geral. Ele olhou para Yoshi, antes de acrescentar: — E os outros!

Yoshi fingiu não compreender a insinuação de seu adversário. Não importa, pensou ele, o dia está chegando.

— Podemos lidar com todos os inimigos, um de cada vez... não juntos. Toyama declarou, em tom ríspido:

— Voto para ordenarmos a todos os daimios amigos que aumentem os impostos e tratem de se armar. Eu começarei amanhã.

— “Aconselhar” é uma palavra melhor — interveio Adachi, cauteloso, e esvaziou sua xícara de chá. Flores delicadas ornamentavam as bandejas laqueadas postas diante de todos. Ele reprimiu um bocejo, entediado, ansioso em voltar para a cama. — Por favor, Yoshi-dono, continue a apresentar seu plano. Se não conhecermos todos os detalhes, como poderemos votá-lo?

— Na manhã da reunião, Anjo-sama cairá doente, infelizmente, sentimos muito. Como nem todos os roju estarão presentes, não poderemos tomar decisões definitivas, mas escutaremos tudo, e tentaremos chegar a um acordo. Se não for possível, então concordaremos, com a deferência apropriada, em “apresentar seu desejos ao conselho pleno, assim que possível”... e continuaremos a protelar, até deixá-los tão furiosos que eles é que cometerão um erro, e não nós.

— Por que eles haveriam de concordar com outro adiamento? — perguntou Anjo, contente porque não teria um confronto pessoal com os gai-jin, mas desconfiando de Yoshi, e especulando qual seria a manobra escusa.

— Os cães já provaram que preferem conversar a lutar, são covardes — disse Yoshi. — Embora pudessem nos dominar com facilidade, é evidente que não têm coragem suficiente para isso.

— E se eles não concordarem, e esse insolente macaco inglês cumprir sua ameaça, e partir para Quioto? O que faremos então? Não podemos permitir isso, em quaisquer circunstâncias!

— Concordo — disse Yoshi, decidido, e todos ficaram tensos. — Isso significa guerra... uma guerra que acabaremos perdendo.

Toyama protestou no mesmo instante:

— É melhor guerrearmos como homens do que nos tornarmos escravos, como os chineses, indianos e todas as outras tribos de bárbaros! — O velho examinou Yoshi. — Se eles desembarcarem, você votará pela guerra?

— Mas claro que sim! Qualquer tentativa de desembarcar à força... em qualquer lugar... será enfrentada.

— Ainda bem — disse Toyama, satisfeito.— Neste caso, torço para que eles tentem desembarcar.

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