Enquanto se encontra longe, Yoshi-chan, posso me manter calma, na maior parte do tempo, mas perto de você... Torna-se então muito difícil, embora eu finja — e como finjo! —, não consigo esconder o ciúme das outras e me comportar como uma esposa perfeita. Mas isso não significa que eu, como todas as esposas não sinta um ciúme violento, às vezes no nível da loucura, desejando matar ou ainda melhor, mutilar as outras, querendo ser desejada e levada para a cama com uma paixão igual.

— Passou muito tempo ausente, marido — murmurou ela, gentilmente, querendo que Yoshi a possuísse agora, no chão, impetuoso, como imaginava que os jovens camponeses faziam.

Era quase meio-dia e um vento suave varria o céu. Estavam no santuário mais íntimo de Yoshi, um conjunto de três aposentos, com tatames, e um banheiro, junto de uma ameia no canto. Hosaki servia-lhe chá, com a elegância de sempre. Desde criança que estudara a cerimônia do chá, assim como Yoshi, mas agora ela se tomara uma sensei, uma mestra do chá. Ambos haviam se banhado e sido massageados. As portas se achavam trancadas, os guardas de vigia, as criadas dispensadas. Yoshi usava um quimono engomado, ela um quimono largo, de dormir, os cabelos soltos.

— Depois de nossa conversa, acho que vou descansar. Assim, estarei com a cabeça desanuviada para esta noite.

— Montou durante todo o percurso?

— Isso mesmo, Sire.

A viagem fora bastante árdua, com pouco sono, troca de cavalos a cada três ri, cerca de quinze quilômetros.

— Quanto tempo levou?

— Dois dias e meio. Trouxe apenas vinte servidores, sob o comando do capitão Ishimoto.— Hosaki riu. — Eu precisava mesmo da massagem e do banho. Mas, primeiro...

— Quase dez ri por dia? Por que a marcha forçada?

— Em grande parte para o meu prazer — respondeu ela, jovial, sabendo que havia tempo suficiente para as más notícias. — Mas, primeiro, Yoshi-chan, para o seu prazer.

— Obrigado.

Yoshi tomou o chá verde fino da xícara ming, largou-a ao terminar, observando e esperando, impressionado com o controle e tranquilidade da esposa. Após ervir de novo, tomar um gole de seu chá, ela também largou a xícara e disse suavemente:

— Decidi vir até aqui sem demora porque ouvi rumores inquietantes e precisava tranquilizar a mim mesma e a seus capitães de que você estava bem... rumores de que você corria perigo, que Anjo mobilizava o conselho contra você, que o atentado dos shishi contra ele e o assassinato de Utani eram parte de uma grande escalada de Sonno-joi, que a guerra é iminente, partindo de dentro e de fora, e que Anjo continua a trair, a você e a todo o xogunato. Ele deve estar insano para permitir que o xógum e sua esposa imperial viajem para Quioto, numa demonstração de submissão.

— Tudo isso é verdade ou verdade parcial — respondeu Yoshi, com igual serenidade, deixando a esposa angustiada. — As más notícias viajam com as asas do falcão, Hosaki, neh? Tudo é pior por causa dos gai-jin.

Ele relatou seu encontro com os estrangeiros, falou sobre Misamoto, o espião, e contou com mais detalhes as intrigas no castelo... mas não sobre a suspeita da ligação de Koiko com os shishi. Hosaki jamais compreenderia como ela é excitante e essa informação a torna ainda mais excitante, pensou Yoshi. Minha esposa aconselharia o imediato afastamento de Koiko, a investigação e punição, não me dando sossego enquanto isso não fosse feito. Ele concluiu com a presença da esquadra estrangeira às suas portas, a mensagem e a ameaça de Sir William e a reunião daquele dia.

— Zukumura? Um ancião? Aquele cabeça de peixe senil? Um dos seus filhos não casou com uma sobrinha de Anjo? O velho Toyama não votou por ele, não é mesmo?

— Toyama limitou-se a dar de ombros e disse: “Ele ou outro, nada significa, entraremos em guerra em breve. Tenham quem quiserem.”

— Ou seja, na melhor das hipóteses, serão três contra dois, você perdendo.

— Isso mesmo. Agora, não há como conter Anjo. Ele pode fazer o que quiser, votar para aumentar seus poderes, promover-se a tairo, qualquer estupidez que imaginar... como a absurda viagem de Nobusada a Quioto.

Yoshi sentiu outra vez uma pressão no peito, mas tratou de ignorá-la, satisfeito pela oportunidade de falar com franqueza... ao máximo de que era capaz, confiando nela mais do que em qualquer outra pessoa.

— Os bárbaros eram como os imaginava, Sire?

Tudo neles a fascinava. “Conheça seu inimigo como a si mesmo...” Sun-tzu

Era o principal livro de aprendizado de Hosaki e suas quatro irmãs e três irmãos, tanto como as artes marciais, caligrafia e a cerimônia do chá. Ela e as irmãs também haviam estudado, com a mãe e as tias, tudo sobre a terra e administração financeira, assim como métodos práticos de lidar com homens de todas as classes, e o futuro e a suprema importância. Ela nunca se destacara nas artes marciais, embora soubesse usar uma faca bastante bem.

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