Com a maior astúcia, um dos homens fez uma finta, a fim de proporcionar uma abertura ao outro, mas Yoshi se encontrava preparado, esquivou-se sob o golpe e acertou o homem no peito, a espada quebrando com a força do golpe — se a lâmina fosse de verdade, teria quase cortado o homem em dois — e assim eliminando-o da disputa.

No mesmo instante, o outro se adiantou, confiante, para o golpe final, mas Yoshi já não se postava mais no lugar onde deveria estar, abaixando-se quase até o chão e desferindo um golpe de karatê com o pé. O atacante gemeu em agonia quando o lado do pé de Yoshi, duro como ferro, atingiu-o no escroto, fazendo-cair ao chão a se contorcer de dor. Ainda dominado pela raiva, a adrenalina fluindo —Yoshi saltou para o homem caído, erguendo a espada partida, que seria cravada no pescoço do oponente, para o golpe mortal. Mas ele deteve o golpe a uma fração do pescoço, o coração batendo forte, extasiado com sua habilidade e controle, por não ter falhado desta vez, a vitória nada significando. Sua fúria acumulada se dissipou.

Contente agora, ele jogou para o lado a espada de madeira quebrada e começou a relaxar, a sala de exercício despojada, como o resto do castelo. Todos se recuperavam do esforço intenso, o homem no chão ainda se contorcia em dor. Foi nesse instante que Yoshi se surpreendeu ao ouvir palmas suaves. Virou-se, furioso — por seu costume, ninguém jamais era convidado a testemunhar aqueles exercícios, nos quais se podia avaliar a extensão de suas proezas, determinar suas fraquezas e medir sua brutalidade —, mas a raiva também se desvaneceu.

— Hosaki! Quando você chegou? — disse ele, tentando recuperar o fôlego. — Por que não enviou um mensageiro para me avisar de sua vinda?

Yoshi fez uma pausa, o sorriso sumindo.

— Problemas?

— Não, Sire — respondeu a esposa, feliz, ajoelhando-se ao lado da porta. — Nenhum problema, apenas uma abundância de prazer por vê-lo de novo.

Ela fez uma reverência profunda, a saia e o blusão de montaria de seda verde, trajes modestos e marcados por muitas viagens, assim como o sobremanto acolchoado, também verde, o chapéu largo, amarrado sob o queixo, e a espada curta na obi.

— Por favor, desculpe-me por aparecer assim, sem ser convidada e sem trocar de roupa antes, mas não podia esperar para vê-lo... e agora me sinto ainda mais satisfeita, por saber que é um espadachim melhor do que nunca.

Ele fingiu não estar deliciado, adiantou-se, fitou-a nos olhos, inquisitivo.

— Realmente nenhum problema?

— Nenhum, Sire.

Ela estava radiante, com uma adoração ostensiva. Dentes brancos, olhos escuros, num rosto clássico, que não era atraente nem comum, mas não seria esquecido, toda a sua presença irradiando extrema dignidade. Nove anos antes, quando Yoshi tinha dezessete anos, o pai lhe dissera:

— Yoshi, escolhi uma esposa para você. Sua linhagem é Toranaga, como a nossa, embora do ramo menor de Mitowara. Ela se chama Hosaki, significando uma “espiga de trigo”, na língua antiga, um presságio de abundânciae fertilidade, e também “ponta de lança”. Não creio que ela venha a lhe falhar em qualquer das duas capacidades...

E não falhara mesmo, pensou Yoshi, orgulhoso. Já tinham dois lindos filhos e uma filha, e ela ainda é forte, sempre sábia, uma competente administradora de nossas finanças, e, o que é raro numa esposa, bastante agradável na cama, embora sem o fogo da minha consorte ou parceiras de prazer, Koiko em particular.

Ele aceitou uma toalha seca do oponente que saíra ileso e acenou com a mão para dispensá-los. O homem fez uma reverência, em silêncio, ajudou o outro a se levantar, e os dois saíram.

Yoshi ajoelhou-se perto da esposa, enxugando o suor.

— E então?

— Não é seguro aqui, neh? — sussurrou ela.

— Nenhum lugar é seguro.

— Primeiro — acrescentou Hosaki, em voz normal —, primeiro, Yoshi-chan, vamos cuidar de seu corpo: um banho, uma massagem e, depois, conversaremos.

— Boa idéia. Há muito que conversar.

— Há, sim. — Sorrindo, ela se levantou e, em resposta a seu olhar inquisitivo tomou a tranquilizá-lo: — Está tudo bem no Dente do Dragão, seus filhos com plena saúde, sua consorte e o filho dela felizes, seus capitães e servidores atentos e bem armados... tudo como você haveria de querer. Apenas decidi fazer uma visita, num súbito capricho... só para vê-lo e conversar sobre a administração do castelo.

E também por querer ir para a cama com você, meu belo, pensou Hosaki e seu coração secreto, contemplando-o, as narinas absorvendo seu cheiro masculino consciente de sua proximidade, e ansiando, como sempre, por sua força.

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