André sentava à escrivaninha de Seratard, com muitos papéis espalhados por cima. O despacho era sobre a Struan, sua possível transação de armas com Choshu e a possível ajuda que uma possível esposa francesa poderia prestar à incipiente indústria de armamentos da França.

— Divertiu-se bastante? Como está seu noivo?

— Muito melhor, obrigado. O jantar foi magnífico, para quem gosta de comida pesada. Ah, que saudade de Paris...

— Tem razão.

Por Deus, como ela é sedutora, pensou ele, o que o lembrou da infame doença infecciosa que o corroía.

— O que foi? — indagou Angelique, sobressaltada com a repentina palidez de André.

— Nada. — Ele limpou a garganta, fazendo um esforço para controlar o horror. — Apenas os problemas de sempre... nada de grave.

André parecia tão vulnerável, tão desamparado, que abruptamente ela decidiu confiar nele de novo. Fechou a porta, sentou ao seu lado, contou sua história.

— O que vou fazer agora, meu caro André? Não consigo obter nenhum dinheiro... o que posso fazer?

— Enxugue as lágrimas, Angelique, porque a resposta é muito simples. Amanhã ou depois, eu lhe acompanhei para fazer compras — disse ele, a mente lúcida para os problemas mundanos. — Pediu-me para ajudá-la nas compras, procurar um presente de noivado para monsieur Struan, não é mesmo? Abotoaduras de ouro com pérolas e brincos de pérolas para você.

André fez uma pausa, a voz entristeceu quando acrescentou:

— Ah, uma coisa horrível, em algum lugar, no caminho de volta do joalheiro, você perde um par... procuramos por toda parte, mas em vão. Horrível! — Os olhos castanho-claros fixavam-se nos de Angelique. — Enquanto isso, a mama-san recebe seu pagamento secreto. Cuidarei para que o par que você “perdeu” mais do que cubra o medicamento e todos os outros custos.

— Você é maravilhoso! — Angelique abraçou-o. — O que eu faria sem a sua ajuda?

Ela tornou a abraçá-lo, agradeceu mais uma vez e saiu da sala quase dançando. André ficou olhando para a porta fechada por um longo tempo. É isso mesmo, pensou, com uma estranha inquietação, cobrirá o medicamento, meus vinte luíses e todas as outras despesas que eu decidir. Pobre criança, não imagina como é fácil manipulá-la. Está metida num sorvedouro cada vez mais profundo. Não percebe que agora se torna uma ladra e, pior ainda, uma criminosa planejando uma fraude deliberada.

E você, André, é um cúmplice na conspiração.

Ele soltou uma risada, uma risada amarga e irônica. Prove! Ela falará ao tribunal sobre um aborto, com a mama-san como testemunha contra mim? O tribunal acreditará na história da filha e sobrinha de criminosos contra a minha?

Não, mas Deus saberá, e muito em breve estarei diante d'Ele.

E Ele saberá que fiz muito pior. E tenciono fazer ainda mais.

As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto.

— Ah, miss — disse Ah Soh, tentando ajudar Angelique a se despir, encontrando dificuldade porque ela não parava por um instante sequer, outra vez alegre e buliçosa, seu problema imediato resolvido. — Miss?

— Está bem, está bem... mas tenho pressa.

Angelique parou ao lado da cama, mas continuou a cantarolar a animada polca, o quarto mais feminino e aconchegante à luz do lampião de óleo do que durante o dia, as janelas de vidro entreabertas, por trás das grades enviesadas.

— Miss, divertiu, hem?

Com extrema habilidade, Ah Soh começou a desprender as tiras da cintura da saia.

— E muito, obrigada — respondeu Angelique, polida.

Não chegava a gostar de Ah Soh, uma mulher de meia-idade, quadris largos, uma criada, em vez de uma autêntica ama.

— Mas ela é muito velha, Malcolm! Não pode arrumar alguém que seja jovem, bonita, e que saiba rir?

— Gordon Chen, nosso compradore, escolheu-a, Angel. Ele garante que é uma pessoa de confiança absoluta; ela pode escovar seus cabelos, ajudá-la no banho, cuidar de suas roupas européias. É um presente meu para você, enquanto estiver no Japão...

As tiras afrouxaram e a crinolina caiu. Ah Soh fez a mesma coisa com a anágua e, por fim, cuidou da armação de ossos e metais que sustentava a crinolina. Um calção comprido, meias de seda, combinação curta, o espartilho e o corpete que reduziam sua cintura de cinqüenta centímetros para quarenta e seis e empurravam os seios para cima, como determinava a moda. Enquanto a criada desfazia o espartilho, Angelique deixou escapar um suspiro de satisfação, saiu do mar de peças de roupa, arriou na cama e permitiu, como uma criança, que Ah Soh a despisse por completo. Obediente, ergueu os braços, para que a camisola estampada fosse enfiada pela cabeça.

— Sente, miss.

— Não esta noite, Ah Soh. Meus cabelos podem esperar.

— Ah, amanhã não bom! Ah Soh brandiu a escova.

— Está bem, está bem...

Angelique tornou a suspirar, saiu da cama, foi sentar à penteadeira, deixou que a criada tirasse os grampos, começasse a escovar seus cabelos. Era uma sensação bastante agradável. Ah, como André é esperto! Torna tudo tão simples... agora posso obter todo o dinheiro de que preciso... como ele é esperto!

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