— Você viu como os gai-jin são a escória, bêbados e repugnantes, brigando como animais, refestelando-se na sujeira da cidade dos bêbados... são esses os homens que você quer conhecer melhor, com os quais deseja parecer?
— Parta logo!
Também furioso, Ori pegara a espada curta e a pistola. Por sugestão de Raiko, juntara-se à procissão diária de criados a caminho do mercado em Kanagawa, onde se podia comprar o melhor
Esta noite a possuirei pela segunda vez. E depois a matarei. Se eu escapar, karma. Se não escapar, karma. Mas ela morrerá por minha mão.
O suor escorria pelo rosto e costas. Mais uma vez, Ori concentrou-se, observando-a através da fresta, tão perto que, se não fosse pela parede, poderia estender a mão e tocá-la. Ela se ajeitou na cama, com uma camisola reveladora. A criada diminuiu a chama do lampião a óleo, deixando apenas tênue claridade.
— Boa noite, miss.
— Boa noite, Ah Soh.
Feliz por ficar sozinha, Angelique aconchegou-se sob as cobertas, vendo as sombras produzidas pela chama dançarem com a aragem, a cabeça encostada no braço. Antes de Kanagawa, o escuro nunca a perturbara; num instante resvalava para o mundo dos sonhos, acordando revigorada. Desde Kanagawa, no entanto, o padrão mudara. Agora insistia em ter uma luz acesa durante a noite. O sono não vinha com facilidade. A mente logo a conduzia por caminhos de suposições delirantes. As mãos apalpavam os seios. Tornaram-se um pouco mais cheios do que ontem, os mamilos mais sensíveis? Estão, sim... não, é apenas imaginação. E a barriga? Ficou mais redonda? Não, não há qualquer diferença, mas...
Mas havia uma vasta diferença, como a.C. e d.C, e pelo menos uma vez por dia especulo se seria um menino ou uma menina. Ou um demônio, saindo ao pai estuprador. Não, não, nenhuma criança gerada por mim poderia ser um demônio!
Demônio. Isso me lembra que hoje é sexta-feira e daqui a dois dias tenho de ir à igreja, me confessar de novo. As palavras não se tomaram mais fáceis. Como detesto a confissão agora e abomino o padre Leo, um velho gordo, grosseiro, lascivo, fedendo a tabaco. Ele me lembra o confessor de tia Emma em Paris... o velho escocês, recendendo a uísque, cujo francês era tão horrível quanto sua batina. Sorte minha que nem ela nem tio Michel eram fanáticos, apenas simples católicos de domingo. Gostaria de saber como ela está, e também o pobre tio Michel. Amanhã falarei com Malcolm...
O querido Malcolm, tão maravilhoso esta noite, tão forte e sensato... Ah, como eu o desejava! Fico contente em poder conversar com ele. Ainda bem que tia Emma Se recusou a aprender francês, por isso tive de aprender inglês. Como ela conseguiu sobreviver em Paris, durante tantos anos, falando apenas inglês? E o que de tio Michel para casar com ela e suportar tantas dificuldades? Embora eu não posso deixar de reconhecer que ela é uma desmazelada e, ele, um vulgar.
Amor! É isso o que ele sempre diria, e ela também, o que aconteceu quando se conheceram, na Normandia, nas férias de verão, ele um servidor público subalterno, ela uma atriz numa companhia shakespeariana itinerante. Foi amor à primeira vista, os dois sempre diriam, e acrescentariam que ela era linda, ele muito bonito. Fugiram juntos, casaram em uma semana, tão romântico, mas não foram felizes para sempre.
Mas nós seremos, Malcolm e eu. Com toda certeza! Amarei Malcolm como uma esposa moderna deve fazer, teremos muitos filhos, serão criados como católicos, não tem importância para ele, que também não é um fanático: