Struan usava um elegante chambre vermelho de seda, por cima de camisa e calça folgadas, botas de couro macio, gravata. Levantou-se, a dor abrandada pelo elixir que Ah Tok lhe dera, meia hora antes.
— Sinto-me melhor que em muitos dias, minha querida. Um pouco trêmulo, mas bem... ah, como você está adorável!
A luz do lampião a óleo tornava o rosto encovado de Struan mais bonito do que nunca e Angelique ainda mais desejável. Ele pôs as mãos nos ombros dela para se firmar, sentindo a cabeça e o corpo estranhamente leves. A pele de Angelique era macia, quente ao seu contato. Seus olhos faiscavam e Struan fitou-a, com amor intenso, beijando-a. Gentilmente, a princípio, e depois, quando ela retribuiu, exultando com o sabor e a acolhida de Angelique.
— Eu amo você — murmurou ele, entre beijos.
— Eu também amo você — respondeu ela, acreditando nisso, tonta de prazer, muito feliz por ele parecer melhor, seus lábios fortes, procurando, as mãos fortes, procurando também, mas dentro dos limites... limites que ela, de repente, em delírio, quis ultrapassar. —
Por um momento, permaneceram abraçados, e depois, com uma força que não sabia que possuía, Struan levantou-a do chão, foi sentar na cadeira grande, ajeitou-a em seu colo, os lábios unidos, um braço seu enlaçando a cintura pequena, uma das mãos num seio, a seda parecendo realçar o calor por baixo. E o espanto dominou-o. Espanto porque agora, quando todas as partes da mulher estavam cobertas, eram proibidas, enquanto na outra noite tudo ficara à mostra, oferecido, também jovem, ele se sentia mais eufórico e estimulado do que nunca, embora ao mesmo tempo controlado, não mais frenético de desejo.
— Muito estranho...
E Struan pensou: não, não é tão estranho assim, a dor foi encoberta pelo medicamento; o resto não, e o resto é meu amor por ela.
—
— É estranho que eu precise tanto de você, mas sou capaz de esperar. Não por muito tempo, mas posso esperar.
— Por favor, não por muito tempo...
Os lábios de Angelique tornaram a procurar os dele, nada em sua mente além daquele homem, o calor bloqueando sua memória, apagando as preocupações, Os problemas desaparecendo. Para os dois. Até o súbito estampido de um tiro, lá fora nas proximidades.
O clima se desvaneceu, ela se empertigou no colo de Struan e no instante seguinte correu para a janela entreaberta. Lá embaixo, avistou Tyrer e Pallidar. Oh, droga, tinha me esquecido dos dois, pensou ela. Eles olhavam para o interior depois se viraram na direção da cidade dos bêbados.
Angelique esticou a cabeça além da janela, mas viu apenas um vago grupo de homens, na outra extremidade da rua, seus gritos estridentes se perdendo no vento.
— Parece que não é nada demais, Malcolm, apenas uma confusão na cidade dos bêbados...
Brigas e tiros, até mesmo duelos, não eram raros naquela parte de Iocoama. Sentindo-se estranha e enregelada, ao mesmo tempo febril, ela voltou até Struan e fitou-o. Com um pequeno suspiro, ajoelhou-se, pegou a mão dele, comprimiu-a contra a sua face, baixou a cabeça para seu colo; mas a gentileza e os dedos de Struan, acariciando seus cabelos e sua nunca, não afastaram os demônios.
— Devo ir para casa, meu amor.
— É verdade.
Os dedos continuaram a acariciá-la.
— Quero ficar.
— Sei disso.
Struan tinha a impressão de que podia ver a si mesmo de fora, o perfeito cavalheiro, calmo, controlado, ajudando-a a levantar, esperando enquanto ela ajeitava o corpete e os cabelos, arrumava o xale. Depois, de mãos dadas, acompanhou-a até o alto da escada, onde se permitiu ser persuadido a ficar, deixando que a criada a escoltasse até lá embaixo. Na porta, Angelique virou-se, acenou numa despedida amorosa, ele respondeu e depois ela se foi.
Malcolm teve a impressão de que não precisou de qualquer esforço para voltar e se despir. Deixou que a criada tirasse suas botas. Deitou-se, sem ajuda, recostou-se em paz, consigo mesmo e com o mundo. A cabeça ótima, o corpo ótimo, relaxado.
— Como está meu filho? — sussurrou Ah Tok, da porta.
— Na terra da papoula.
— Isso é ótimo. Não há dor para meu filho aí. Ela soprou a chama e deixou-o sozinho.
Mais abaixo, na High Street, o soldado francês de sentinela, o uniforme tão desleixado quanto seu comportamento, abriu a porta da legação para ela.
—
—
Fechada a porta, Angelique recostou-se nela por um momento, a fim de se controlar. O prazer da noite desaparecera. Em seu lugar, os espectros pressionavam por atenção. Absorvida em seus pensamentos, ela seguiu pelo corredor para sua suíte, avistou uma luz por baixo da porta de Seratard. Parou e, num súbito impulso, refletindo que podia ser a ocasião perfeita para pedir um empréstimo, bateu na porta e entrou.
— Oh, André! Desculpe. Eu esperava encontrar
— Ele ainda está com Sir William. Eu estava acabando de preparar um despacho para ele.