O rosto de André transformou-se numa máscara.
— Não vamos falar de Hana.
— Ah, sinto muito, mas eu gostaria, por favor, porque posso ter uma solução para ela.
— Não há nenhuma — protestou ele, irritado. — Não há cura, Hana morreu, e nada tem a ver com pérolas!
— Tem razão. Por favor, fique calmo e escute. Talvez eu possa encontrar outra Hana, parecida, mas que já tenha a doença chinesa.
— Não é possível! — exclamou André, chocado. — A doença é horrível.
— Pode ser, perto do fim — insistiu ela, paciente. — Muitas vezes nada aparece por anos. Você não é feio, nada aparece no seu rosto, Furansu-san... talvez se passem anos antes que a doença se manifeste. Depende do seu karma. Devo procurar uma jovem nessas condições?
Ele fez menção de falar, desistiu, sacudiu a cabeça.
— Se eu conseguisse encontrar uma nova Hana, Furansu-san, e se você...
— Não é possível.
—... se você a aprovasse, e ela também o aprovasse, poderiam ficar juntos até... até que você decida... — Raiko deu de ombros. — Nunca importa o futuro, hoje é hoje, e esta é a regra do nosso mundo flutuante. Manteria a moça aqui, eu providenciaria a construção de uma nova casa, pois a outra foi destruída, como não podia deixar de ser. Você a trataria como Hana, em todas as coisas, o mesmo preço de contrato, o mesmo dinheiro mensal para roupas e alojamento, e ela o servirá com exclusividade.
Os olhos de Raiko o fixavam, e André compreendeu que ela podia ver em sua alma, contemplá-lo a se contorcer numa esperança súbita e frenética, ansiando em aceitar o que o livraria do tormento — a notícia do seu karma viajara com a velocidade da luz e, agora, todas as casas vedavam o seu acesso, com extrema polidez, sem dúvida, mas ainda assim o impediam de chegar a qualquer travesseiro, o que só era possível na cidade dos bêbados — mas também seria uma eterna espada de Dâmocles pairando sobre sua cabeça. E, ainda pior, seu ímpeto sexual não diminuíra, ao contrário, aumentara, a obsessão maior do que antes, e que já o levara à insanidade de duas noites atrás, com Angelique, não que deixasse de desejá-la agora, ainda a queria, com mais intensidade do que nunca, e sabia que, sem um meio de descarregar, tentaria de novo, e não falharia na próxima vez. Mãe Abençoada, ajude-me, pensou ele, quase em lágrimas, pois não quero infeccioná-la também.
— Há outra possibilidade — continuou Raiko, com um olhar estranho. — Podemos conversar sobre isso depois. Agora, Hana.
— Não quero falar sobre Hana!
— Tenho de fazê-lo, Furansu-san. Agora. Queria saber como ela morreu, neh?
Ele focalizou os olhos, quase parou de respirar, enquanto ela acrescentava:
— Depois que você foi embora correndo, naquela noite, e ela me contou o motivo, chorando, também fiquei chocada. Mandei que deixasse a casa e insultei-a com veemência, embora fosse como uma filha para mim. Claro que você estava certo e deveria tê-la matado, não apenas agredido, antes de ir embora, e claro que a
— Fale devagar... mais devagar.
— Por favor, desculpe, mas é muito difícil devagar. Ela deveria ter me comtado no momento em que soube. Fiquei furiosa e deixei que ela tentasse alcançá-lo, o que não conseguiu. E foi então que uma das criadas... Mieko... veio me avisar que Hana tentara o haraquiri...
Raiko suava agora. Não fora a primeira tentativa de suicídio em que estive envolvida. Houvera dezenas em seus quarenta e cinco anos como aprendiz, cortesã e
Quando entrara correndo no quarto, Raiko encontrara a jovem em agonia chorando, desamparada, o pescoço cortado várias vezes, mas sem nenhuma veia ou artéria rompida, e a traquéia apenas arranhada. Um pouco de ar borbulhava do corte, que sangrava bastante, mas não de forma letal. Ela estava arriada nos futons, a faca bem perto, mas a mão não conseguia empunhá-la, e cada vez que ela tentava erguê-la, escapulia de seus dedos, e durante todo o tempo Hana chorava, sufocava e vomitava, suplicando perdão, balbuciando... ajude-me... ajude-me... ajude-me...
— Ela se encontrava além de todo e qualquer desejo de vida, Furansu-san — comentou Raiko, com uma profunda tristeza.— Já vi muitas assim e tenho certeza. Se sobrevivesse, haveria de tentar de novo e de novo, sem desistir. Neste mundo, pelo menos no nosso, chega um momento em que é bom e sábio ir para o além. Acabamos com o sofrimento de animais... é certo proporcionar o mesmo alívio a uma pessoa. Por isso, nós a ajudamos. Tratamos de acalmá-la e limpá-la, ajudamo-la a sentar, ela teve tempo de dizer
— Você... em parte... a matou?