Para passar o tempo, venho lendo tudo o que posso encontrar (os jornais, além das notícias sobre a moda e a vida em Paris, são de fato muito interessantes, como fiquei surpresa ao descobrir, o que me levou a compreender que tenho sido uma desmiolada).

Mas devo me preparar para todas as soirées que terei de oferecer por meu marido, recebendo seus convidados importantes... assim como suas esposas. Por isso, tenciono aprender sobre comércio, ópio, chá, algodão, bicho-da-seda... Mas é preciso tomar bastante cuidado. Na primeira vez em que tentei conversar sobre um artigo relatando a lamentável situação da indústria da seda francesa (e é por isso que os bichos-da-seda japoneses são tão valiosos), Malcolm disse: “Não preocupe sua linda cabecinha com essas coisas, Angel...” E NÃO consegui dizer uma única palavra, nem mesmo como um aparte. Para ser franca, ele ficou na maior irritação quando sugeri que a Struan poderia abrir uma fábrica de seda na França...

Ah, minha querida Colette, eu gostaria que você estivesse aqui, e assim poderia lhe contar tudo o que tenho guardado no coração... sinto muita saudade, mas muita mesmo...

A ponta de aço, montada num cabo de osso, começou a borrar o papel. Angelique enxugou-o com extremo cuidado e limpou a ponta, admirada por ser tão fácil, a ponta voltando a ser como nova. Até poucos anos antes, a pena de escrever era a mais comum, e ela teria de usar uma faca especial, cortar uma nova ponta, parti-la para durar mais uma ou duas páginas, enquanto que aquelas penas Mitchell, produzidas em massa em Birmingham, duravam por dias e dias, e eram vendidas em diversos tamanhos, para agradar à fantasia e caligrafia de cada pessoa.

Por trás dela, Struan remexeu-se, mas não acordou. Adormecido, ele tem um rosto impecável, pensou Angelique. Atraente e forte... A porta foi aberta, e Ah Soh entrou.

— Miss, almoço, querer aqui ou lá embaixo, hem?

Struan despertou no mesmo instante.

— Sua patroa vai comer aqui — disse ele, bruscamente, em cantonês. — Eu almoçarei lá embaixo, em nossa sala de jantar principal, e avise ao cozinheiro que é melhor a comida estar excepcional.

— Sim, tai-pan.

Ah Soh retirou-se, quase correndo.

— O que disse a ela, Malcolm?

— Apenas que você almoçaria aqui... vou comer lá embaixo. Convidei Dmitri, Jamie e Norbert. — Ele olhou para ela, delineada contra a luz. — Você está linda.

— Obrigada. Posso almoçar com vocês? Eu gostaria.

— Lamento, mas temos negócios a discutir.

Com um grande esforço, Struan levantou-se e ela entregou-lhe as duas bengalas. Antes de pegá-las ele abraçou-a e Angelique permitiu que seu corpo se comprimisse contra o dele, disfarçando a irritação por ter sido preterida mais uma vez... não tinha para onde ir, nada a fazer, exceto escrever, ler alguma coisa e esperar. Era uma vida muito maçante...

Lun Dois cortou a primeira das enormes tortas de maçã em quartos, que passou Para pratos de peltre, despejou o creme espesso por cima, em porções generosas, e serviu os quatro homens.

— Deus Todo-Poderoso, onde conseguiu isso? — indagou Norbert Grey-forth.

Dmitri acrescentou, com igual espanto:

— É inacreditável!

— O creme? — McFay arrotou. — Desculpem. Com os cumprimentos do Tai-pan.

Dmitri levou a colher cheia à boca.

— A última vez que comi creme foi em Hong Kong, há seis meses. Hum... este é maravilhoso. É uma nova exclusividade da Casa Nobre?

Malcolm sorriu.

— Nosso último clíper, que chegou há poucos dias, trouxe três vacas. Foram desembarcadas à noite e, com a ajuda do intendente do exército, ficaram escondidas entre os cavalos... não queremos que sejam sequestradas ou que a alfândega japonesa comece a fazer perguntas. As vacas são vigiadas dia e noite.

Ele não podia conter sua satisfação pelo efeito do creme, depois de uma lauta quantidade de carne, batatas assadas, legumes frescos, um pastelão do faisão local, queijos franceses e ingleses... tudo acompanhado por cerveja, Château Haut-Brion 1.846, um excelente Chablis e porto.

— Vamos iniciar um rebanho aqui, se elas se aclimatarem, e uma fábrica de laticínios... subsidiária da que temos em Hong Kong... foi uma idéia de Jamie, e é claro que a produção estará disponível para todos.

— Aos habituais preços “nobres”? — disse Norbert, sarcástico, numa irritação óbvia por não ter tomado conhecimento antes daquele novo empreendimento da Struan.

— Com lucro... mas razoável — declarou Struan. Ele ordenara que as vacas fossem trazidas de Hong Kong no momento em que chegara a Iocoama. — Mais, Dmitri?

— Obrigado. Uma torta deliciosa, Malc!

— Quais são as notícias de sua terra? — perguntou Jamie, para romper a tensão entre Struan e Norbert Greyforth.

— Horríveis. Não podiam ser piores. Os dois lados continuam a se engalfinhar, com fuzis e artilharia de longo alcance... as mortes são cada vez mais numerosas. É a loucura do Novo Mundo.

— O mundo inteiro enlouqueceu, meu caro amigo — disse Norbert. — Mas a guerra é um bom negócio, sem a menor dúvida, para os afortunados.

Uma pausa e ele acrescentou, só para provocar Struan:

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