...isso significa que ele foi como o papa das Ilhas Britânicas. Reformou a Igreja, afastou os malfeitores e acabou com os costumes pagãos, foi santo e generoso, em particular com as mulheres, viveu até a idade espantosa de oitenta e oito anos e se mostrou, em resumo, um maravilhoso homem da verdadeira Igreja. Vou celebrá-lo com um dia especial de jejum e, daqui a três dias, com uma festa! O padre Leo me falou sobre ele. Confesso que não gosto do padre Leo, pois ele é muito malcheiroso (tenho de usar um lenço perfumado no confessionário — ele faria você desfalecer, minha cara Colette). No domingo passado tive depressão, e certamente perderei a missa neste domingo também. Lembra como costumávamos fazer isso, no tempo da escola, embora eu creia que jamais saberei como evitávamos as repreensões.

Lembranças de Colette, a escola e Paris distraíram-na por um momento. Ela olhou pela janela para o oceano, de um cinza escuro, tempestuoso, um vento forte criando vagalhões, que corriam para desabar na praia, a uma centena de metros de distância, no outro lado do passeio — navios mercantes ancorados, pequenas embarcações carregando ou descarregando, o único navio de guerra — a fragata Pearl, esplendorosa com seu novo mastro e nova pintura, aproximando-se para atracar de volta de Iedo.

Mas Angelique não viu realmente nada disso, seus olhos concentrados no futuro róseo que a mente prometia. Ali, em sua suíte, fazia calor, reinava a calma, o vento não soprava, as janelas bem vedadas, um fogo ardendo na lareira, com Malcolm Struan cochilando confortável numa poltrona de veludo vermelho, jornais, cartas e faturas em seu colo e espalhados em torno dos pés. A porta de ligação entre as suítes estava aberta. A porta para o corredor da suíte de Angelique destrancada. Era o novo hábito dos dois. Mais seguro assim, haviam concordado, haveria bastante tempo no futuro para a privacidade.

Havia dias em que ele chegava cedo e conduzia os negócios do boudoir de Angelique, até o meio-dia, quando cochilava por alguns minutos, antes do almoço; em outros dias, ele permanecia em sua suíte; e havia ainda os dias em que descia claudicando para o escritório no térreo. Sempre dizia que ela seria bem-vinda ali, mas Angelique sabia que era apenas por polidez. Lá embaixo era o domínio dos homens. Ela sentia-se muito satisfeita por Malcolm estar trabalhando; McFay lhe dissera que desde que “o tai-pan assumiu o comando, tudo se tornou mais eficiente, temos grandes planos em preparativos, e nossa companhia se agita...”

Era o que também acontecia com ela. Sem medo pelo dia de amanhã. Ao contrário, aguardava ansiosa o encontro com André, à noite, na legação. Juntos, haviam imaginado uma desculpa e ela voltaria para lá amanhã, por três dias, enquanto seus aposentos aqui eram repintados, feitas novas cortinas para as janelas e a cama, com sedas que escolhera no armazém.

— Ora, Angel — protestara Struan —, só ficaremos aqui por mais umas poucas semanas e a despesa...

Uma risada e um beijo fizeram-no mudar de idéia. Ah, já começo a amá-lo, e adoro o jogo de impor minha vontade!

Angelique sorriu, e recomeçou a escrever:

Colette querida, tenho mais energia do que em qualquer outra ocasião anterior. Ando a cavalo todos os dias — nada de excursões, o que torna a colônia restritiva —, mas muitos galopes em torno da pista de corrida, com Phillip Tyrer, Settry (Pallidar), que é o melhor cavaleiro que já conheci, às vezes com oficiais de cavalaria franceses e ingleses, sem esquecer o pobre Marlowe, que vem se revelando um homem excepcional, mas infelizmente não é um cavaleiro. Todos partiram há três dias, numa viagem a Iedo, onde Sir William e os ministros estão tendo A REUNIÃO com o gabinete nativo e o rei deles, chamado XÓGUM.

Malcolm melhora a cada dia, mas muito devagar, ainda anda com dificuldade. Continua maravilhoso — exceto nos dias de correspondência (duas vezes por mês), quando se mostra furioso com tudo e com todos, até comigo. Isso acontece apenas porque sempre recebe cartas da mãe (começo a odiá-la), que reclama amargurada de sua permanência aqui, insiste em seu retorno imediato a Hong Kong. Três dias atrás foi pior do que o habitual. Um dos clíperes da Casa Nobre chegou, desta vez com outra carta e uma convocação verbal, transmitida pelo capitão, que disse: “Eu agradeceria, senhor, se pudesse vir para bordo no momento em que descarregarmos a carga especial. Nossas ordens são para escoltá-lo e ao Dr. Hoag até Hong Kong, o mais depressa possível...”

Nunca tinha ouvido uma linguagem assim, Colette! Pensei que o pobre Malcolm ia sofrer um ataque apoplético. O capitão ficou atordoado e se retirou apressado. Mais uma vez, implorei a Malcolm para fazermos o que ela quer, mas... ele se limitou a resmungar: “Partiremos quando eu decidir, e ponto final! Nunca mais torne a tocar nesse assunto!” Iocoama é muito TEDIOSA e eu gostaria muito de voltar a Hong Kong e à civilização.

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