— Correm rumores de que haverá outro ataque dos shishi em Quioto. Há indícios de que estão se concentrando ali. Em grande quantidade.

— Que tipo de ataque seria? Um assassinato?

— Ninguém sabe, por enquanto. Talvez outro atentado. O líder shishi com o codinome de “Corvo” teria determinado a convocação. Estou tentando descobrir quem ele é.

— Ótimo. De um jeito ou de outro, os shishi devem ser destruídos. — Yoshi pensou por um instante. — O veneno deles poderia ser dirigido contra Ogama ou Sanjiro, os verdadeiros inimigos do imperador?

— Seria muito difícil, Sire.

— Descobriu quem informou aos shishi sobre Utani? Sobre seu encontro amoroso?

Depois de uma pausa, Inejin respondeu:

— Foi a criada da dama, Sire, quem sussurrou para a mama-san, que sussurrou para eles.

Yoshi suspirou.

— E a dama?

— A dama parece ser inocente, Sire.

Yoshi tornou a suspirar, satisfeito por Koiko não estar envolvida, mas lá no fundo ainda não convencido.

— A criada está conosco agora... cuidarei dela. Providencie para que a mama-san nada desconfie. Acertarei as contas com ela quando voltar. Já descobriu quem é o outro espião, o que vem fornecendo informações para os gai-jin?

— Não com certeza, Sire. Fui informado que o traidor se chama Ori... ou esse é um pseudônimo... não sei o nome completo, um shishi de Satsuma, um dos homens de Sanjiro, um dos dois assassinos da Tokaidô.

— Foi inepto ao matar apenas um, quando os quatro constituíam um alvo fácil. Onde está o traidor agora?

— Em algum lugar da colônia de Iocoama, Sire. Ele se tornou um confidente secreto do jovem intérprete inglês e do francês de que me falou.

— Ah, ele também... — Yoshi ficou em silêncio por um momento, pensativo. — Silencie esse Ori imediatamente.

Inejin inclinou a cabeça, aceitando a ordem.

— O que mais?

— Isso encerra meu relatório.

— Obrigado. Trabalhou bem.

Yoshi acabou de tomar o chá, imerso em pensamento. O luar projetava estranhas sombras. O velho rompeu o silêncio:

— Seu banho está pronto, Sire, e imagino que tenha fome. Tudo se encontra à sua espera.

— Obrigado, mas faz uma noite tão boa que partirei agora mesmo. Há muito o que fazer no Dente do Dragão. Capitão!

Todos se reuniram num instante. Koiko e sua criada voltaram a vestir as roupas de viagem e ela entrou no palanquim. Com a devida deferência, Inejin, sua família, criadas e servidores saudaram o hóspede, no momento da partida.

— O que faremos com toda a comida que preparamos? — indagou hesitante a esposa, uma mulher pequena, de rosto redondo, também descendente de samurais.

Ela preparara as iguarias às pressas, mas com extremo cuidado, tudo comprado a um vasto custo, para conquistar o suserano naquela visita inesperada — mais de três meses de lucro investido em uma única refeição.

— Vamos comê-la — murmurou Inejin, observando o cortejo se afastar, através da aldeia adormecida, até desaparecer. — Foi muito bom tornar a vê-lo, uma grande honra.

— Foi, sim — murmurou ela, submissa, seguindo-o para o interior do prédio.

A noite era amena, com luar suficiente para se divisar tudo. Além da aldeia, a estrada de terra, a estrada seguia para o norte, sinuosa, com aldeias a intervalos de poucos quilômetros, todas as terras ao redor exploradas por Yoshi desde a sua infância. Reinava um silêncio profundo. Ninguém viajava àquela hora da noite a não ser os salteadores, os ronin e a elite. Vadearam um córrego, o terreno mais aberto naquele ponto. No outro lado, Yoshi parou e fez um sinal para o capitão.

— Pois não, Sire?

Sob o crescente excitamento de todos, Yoshi virou-se na sela e apontou para leste e para o sul, na direção da costa.

— Estou mudando meu plano — anunciou ele, como se fosse uma decisão repentina, e não uma coisa planejada por vários dias. — Agora vamos seguir por este caminho, até a Tokaidô, mas contornaremos as três primeiras barreiras, e em seguida voltaremos à estrada, pouco depois do amanhecer.

Não havia necessidade de perguntar para onde estavam indo.

— Marcha forçada, Sire?

— Isso mesmo. E agora chega de conversa. Vamos embora!

Cento e vinte léguas, dez ou onze dias, pensou Yoshi. E, depois, Quioto e os portões. Meus portões.

25

IOCOAMA

No final da tarde desse mesmo dia, Hiraga esgueirou-se para os fundos de um barraco, na beira da cidade dos bêbados, onde um marujo pequeno e imundo o esperava, bastante nervoso.

— Dê-me o dinheiro, companheiro — disse o homem.

— Sim. Revólver, por favor?

— Num dia você está grã-fino, no outro parece um pobre coitado bexiguento. — O homem tinha uma barba grisalha, um olhar desconfiado, com uma faca afiada na cintura, outra numa bainha no antebraço. Quando Hiraga o abordara pela primeira vez, na praia, usava as roupas que Tyrer providenciara. Hoje usava uma túnica encardida de trabalhador, calça puída e botinas surradas. — Qual é o seu jogo?

Hiraga deu de ombros, sem compreender.

— Revólver, por favor.

— Revólver, hem? Já sei que é isso o que quer.

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