Os olhos astutos esquadrinharam ao redor, pela área coberta de mato e com pilhas de lixo entre a cidade dos bêbados e a aldeia japonesa — um lugar chamado de terra de ninguém pelos moradores locais —, mas não avistou ninguém a espreitá-los.

— Onde está a grana? — indagou ele, irritado. — O dinheiro, pelo amor de Deus, os mexicanos!

Hiraga enfiou a mão no bolso da túnica, achando tudo desconfortável e estranho, as roupas compradas especialmente para o encontro. Três dólares de Prata mexicanos faiscaram em sua mão.

— Revólver, por favor.

Impaciente, o marujo meteu a mão por dentro da camisa e mostrou o Colt.

— Leva a arma quando me entregar o dinheiro.

— Balas, por favor?

O homem tirou do bolso da calça um pano imundo, com uma dúzia ou mais de cartuchos.

— Um negócio é um negócio, e minha palavra é minha palavra.

O marujo estendeu o braço para o dinheiro, mas antes que pudesse apanhá-lo Hiraga fechou a mão.

— Não roubado, sim?

— Claro que não foi roubado!

Hiraga abriu a mão. O homem pegou as moedas, na maior ganância, examinou-as com todo cuidado, para se certificar que não estavam lascadas, nem eram falsificadas, os olhos astutos se desviando para um lado e outro durante todo o tempo. Depois de se convencer que o dinheiro era genuíno, ele entregou o Colt e as balas e se levantou.

— Não seja apanhado com isso, companheiro, ou vai balançar na ponta de uma corda. Claro que é roubado.

O marujo soltou uma risada desdenhosa e se afastou apressado, como o rato com que se parecia.

Hiraga voltou meio agachado para a relativa segurança da aldeia japonesa... segura apenas pelo tempo em que a ralé e os bêbados não decidissem atacá-la. Não havia polícia ou sentinelas para proteger os aldeões. Apenas uma patrulha ocasional da marinha ou do exército passava de vez em quando pela rua principal, e os homens raramente tomavam o partido dos japoneses nos tumultos.

Hiraga levara vários dias para acertar a transação, pois é claro que não podia pedir a ajuda de Tyrer. Ninguém na Yoshiwara possuía uma arma de fogo. Raiko dissera, apreensiva:

— Só os gai-jin têm, Hiraga-san, sinto muito. É perigoso para uma pessoa civilizada ser apanhada com uma arma assim.

Akimoto interviera, ameaçador:

— Se meu primo quer uma arma assim, trate de arrumar logo para ele, Raiko! Você pode fazer qualquer coisa, neh? Como pagamento, eu a levarei para a cama de graça...

Ele se esquivara à almofada que Raiko lhe jogara, os dois rindo. Raiko acrescentara, abanando-se:

— Ah, Hiraga-san, sinto muito, mas suplico que tire esse homem horrível daqui. Duas das minhas garotas já exigiram um dia de folga para se aliviarem da investida do yang dele...

Quando ficaram a sós, Akimoto comentara, muito sério:

— Talvez seja melhor você mudar de idéia, esquecer essa arma. Deixe-me tentar persuadir Ori a se encontrar conosco aqui.

Hiraga sacudira a cabeça, satisfeito pela companhia do primo jovial.

— Ori tem uma pistola e vai usá-la no momento em que nos avistar. Já tentei por todos os meios atraí-lo para fora da cidade dos bêbados e não consegui. Se o emboscar com uma arma de fogo, vai parecer que foi um gai-jin. A qualquer dia ele vai tentar outra vez se encontrar com aquela mulher; estarei perdido aqui no instante em que isso acontecer.

— Talvez ele se canse de esperar. Todos os homens na aldeia foram avisados para vigiá-lo e ninguém vai tirá-lo daqui pelo mar.

— Quem ousaria confiar num aldeão?

Akimoto propusera:

— Neste caso, deixe-me fazer o serviço, quando conseguir a arma.

Ele era muito maior do que Hiraga, que não o reconhecera quando chegara, pois Akimoto também cortara os cabelos da mesma forma.

Ao final, Hiraga abordara o marujo na praia, fingindo ser um mercador chinês visitante de Hong Kong, e acertara o negócio, sua única condição a de que a arma não fosse roubada. Mas é claro que seria roubada...

Akimoto o aguardava na casa da aldeia que haviam alugado por um mês e comentou, rindo:

— Puxa, primo, peço que me desculpe. Não há necessidade de perguntar se conseguiu, mas parece tão engraçado nessas roupas... se os nossos camaradas shishi pudessem vê-lo agora...

Hiraga deu de ombros.

— Desse jeito posso passar pelos cules gai-jin, não importa de onde venham. Todos os tipos de gai-jin e cules se vestem assim na cidade dos bêbados. — Ele se ajeitou de uma forma mais confortável, com o escroto dolorido. — Não consigo entender como eles podem usar roupas tão pesadas, calças que dão cãibras e casacos apertados, durante todo o tempo... e quando faz calor, são horríveis, a gente sua como uma fonte.

Enquanto falava, ele examinava o Colt, avaliava o peso, mirava.

— É pesado.

Saquê?

— Obrigado. Depois, acho que vou descansar até o pôr-do-sol.

Hiraga carregou o revólver, bebeu algum saquê e deitou, satisfeito consigo mesmo. Fechou os olhos, começou a meditar, Quando em paz, permitiu que a mente vagueasse. Pegou no sono num instante. Acordou ao pôr-do-sol. Akimoto continuava de guarda. Ele olhou pela pequena janela e murmurou:

— Não haverá tempestade nem chuva esta noite.

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