— Explique a eles que compensa ser paciente, compensa ser polido e diligente. Ensine-lhes as maneiras corretas, como fazer reverências e assim por diante. Você é o responsável.
Enquanto Misamoto traduzia, Yoshi gesticulou para seu ajudante, que trouxe as duas capas curtas que Hosaki mandara fazer, como se fossem coletes, presas por laços. Na frente e atrás, havia caracteres escritos a tinta, que diziam: Este gai-jin é um servidor pessoal e garimpeiro, sob a minha proteção, e tem permissão, desde que acompanhado por guias oficiais, com os documentos corretos, para garimpar em qualquer parte dos meus domínios. Todos têm a obrigação de ajudá-lo nesse trabalho. Ao final, havia seu lacre pessoal.
— Diga a eles que devem usar isto sempre, que lhes dará salvo-conduto... explique o que está escrito.
Misamoto tornou a obedecer, sem pensar, e mostrou aos dois homens como vestir a capa. Agora cautelosos, simularam paciência e humildade que nada tinham a ver com sua natureza e criação.
— Charlie — sussurrou o cômico, ajustando os laços, mal mexendo os lábios para falar, como a maioria dos ex-condenados sabia fazer, pois passara quatro anos de trabalhos forçados no sertão australiano por se apoderar das concessões de garimpo de outros —, perdido por um penny, perdido pela porra de uma libra.
O americano sorriu, subitamente mais à vontade.
— Espero que valha mais do que uma libra, meu velho...
Yoshi observava-os. Depois de se sentir satisfeito, gesticulou para Misamoto.
— Leve-os com você e espere no pátio.
Depois que eles se retiraram, com as reverências apropriadas, desta vez sem qualquer ajuda, Yoshi mandou que todos se afastassem, à exceção de Inejin.
— Sente-se, velho amigo. — Ele indicou os degraus, onde o velho poderia sentar confortavelmente, já que tinha o quadril esquerdo arrebentado de uma queda de cavalo e era-lhe impossível ajoelhar. — Quais são as novidades?
— Tudo e nada, lorde. — Durante três séculos, Inejin e seus antepassados haviam servido àquele ramo dos Toranagas. Como um
— Até que ponto a fome será severa?
— Precisaremos este ano de arroz de outros lugares para ficarmos seguros e em outros lugares será ainda pior.
Yoshi recordou o que Hosaki já lhe dissera e sentiu-se contente pela previdência e prudência da esposa. Também sentia-se contente por ter um vassalo como Inejin — era muito raro encontrar um homem no qual se pudesse ter confiança total, e ainda mais raro encontrar alguém que falasse a verdade, baseada no conhecimento real, e não por razões de melhoria pessoal.
— O que mais?
— Todos os samurai
Inejin tinha consciência profunda do problema, já que a maior parte de sua família, espalhada por várias regiões, ainda na classe dos samurai
— Os
— E
Outra pausa e o velho respondeu:
— Como muitas coisas neste mundo, lorde, esse grito de batalha é em parte correto, em parte errado. Todos os japoneses detestam os gai-jin... são piores do que os chineses, piores do que os coreanos... todos querem que eles saiam daqui, todos reverenciam o filho do céu, e acham que o seu desejo de expulsá-los é a política certa. De seus vinte homens aqui esta noite, creio que os vinte apoiariam essa parte de
— Tem toda razão — concordou Yoshi.
No fundo, porém, ele sabia que se tivesse o poder, nunca teria permitido o primeiro tratado, e assim não haveria necessidade de o imperador interferir nos assuntos do xogunato; também nunca permitiria que homens de mentalidade mesquinha cercassem o filho do céu para desorientá-lo.