O ar era fresco. Uma insinuação do amanhecer. O céu salpicado de nuvens O mar calmo, sem qualquer som ou sinal de perigo, apenas o suspiro das ondas na praia de areia. Ao longo da High Street, apenas filetes de fumaça restavam dos incêndios. Ninguém por perto, a colônia se encontrava em paz, adormecida.

Ori parou logo atrás da mulher e compreendeu que aquele era o momento perfeito. Sua mão apertou o cabo da faca, as articulações esbranquiçadas. Mas não desfechou o golpe, pois ela se virou com tanta ternura e preocupação que sua determinação se desvaneceu, além do fato de ainda se sentir obcecado pelo desejo. Ela beijou-o, tornou a se inclinar na janela, olhou para um lado e outro, a fim de se certificar de que não havia ninguém por perto.

— Ainda não — murmurou ela, ansiosa, fazendo-o esperar, seu braço enlaçando-o pela cintura.

E quando teve certeza, Angelique tornou a se virar, beijou-o mais uma vez, e depois fez-lhe um sinal para que se apressasse. Ele passou sobre o peitoril, em silêncio; no momento em que se afastava pelo jardim, ela fechou e trancou a janela e seus gritos ressoaram pela noite!

— Socorro! Socorro!

Ori ficou paralisado. Mas apenas por um instante. Tremendo de raiva, bateu nas janelas, os gritos incessantes da mulher e a certeza de que fora enganado o deixando transtornado. Dedos agora transformados em garras arrancaram uma veneziana, estavam prestes a abrir a janela. Foi nesse segundo que um dos soldados franceses de sentinela surgiu da esquina no canto do prédio, o rifle erguido, pronto para disparar. Ori viu-o e foi mais rápido, sacou a pistola, puxou o gatilho, mas errou os dois tiros, pois nunca antes disparara uma arma de fogo, as balas ricocheteando na parede e se perdendo na noite.

O soldado não errou na primeira vez, nem na segunda, nem na terceira. Dentro do quarto, Angelique se encolheu toda, com as mãos nos ouvidos, exultante, angustiada, sem saber o que pensar, o que fazer, se ria ou chorava, certa apenas de que vencera, e que agora estava segura e vingada, com as vozes interiores se regozijando durante todo o tempo: Você triunfou, agiu muito bem, foi maravilhosa, executou o plano com perfeição, agora se tornou a salvo daquele homem para sempre!

— Será mesmo? — balbuciou ela.

Claro que sim, está sã e salva, ele morreu, é verdade que há sempre um preço, mas não se preocupe, não tenha medo...

Que preço? O que... Oh, Deus, esqueci a cruz! Ele ainda está com a minha cruz!

Em meio ao crescente tumulto lá fora, com batidas cada vez mais fortes em sua porta, ela começou a tremer. Incontrolável.

27

Sexta-feira, 7 de novembro:

À tarde, a fragata H.M.S. Pearl voltou de Iedo, com todas as velas içadas, e seguiu para o seu ancoradouro habitual, na movimentada enseada de Iocoama. A bandeira de Sir William se encontrava hasteada no mastro principal. Outras bandeiras pediam a vinda imediata de seu cúter respectivo, mas eram desnecessárias, porque o barco já o esperava no mar, com o cúter a vapor da Struan ao lado... e Jamie impaciente na proa. Todos na praia que avistaram a Pearl ficaram observando, a fim de conferir se seu comandante se encontrava à altura do ímpeto arrogante da embarcação, o vento irregular e a velocidade sob as velas tornando a manobra arriscada. A proa levantava uma onda alta, no mar ondulado. No último segundo, a Pearl virou contra o vento e parou, tremendo toda, o gurupés por cima da bóia a sotavento. No mesmo instante, marujos em uniformes impecáveis lançaram os cabos de amarra sobre os postes de amarração, segurando a fragata, enquanto outros se empenhavam em ferrar as velas. Nada mau, pensou Jamie, orgulhoso, para depois gritar:

— Para a frente, a toda velocidade! Vamos encostar! — Ele queria ser o primeiro a interceptar Sir William, como Malcolm ordenara. — Depressa, Tinker, pelo amor de Deus!

— Sim, senhor!

Tinker, o timoneiro da Struan, ofereceu um sorriso radiante e desdentado, já prevendo a ordem, e aumentou a velocidade. Era um veterano, tatuado, de rabicho grisalho, antigo contramestre de um dos clíperes da companhia. Ao passar pelo cúter de oito remos de Sir William, para desolação de seus tripulantes, Tinker cuspiu a seiva de tabaco no mar e lhes mostrou um dedo, num gesto jovial, antes de ocupar a vaga no costado da fragata. Jamie subiu pela escada. No convés principal, levantou a cartola para o oficial de serviço ali, um guarda-marinha imberbe.

— Permissão para subir a bordo. Mensagem para Sir William. O guarda-marinha bateu continência.

— Pois não, senhor.

— O que foi, Jamie? Qual o problema agora? — gritou Sir William da ponta de comando, com Phillip Tyrer e o capitão Marlowe ao seu lado.

— Desculpe, senhor, mas a colônia se encontra no maior tumulto, e o Sr. Struan achou que eu devia lhe fazer um relato dos acontecimentos.

— Pode usar meu camarote, Sir William — sugeriu Marlowe.

— Obrigado. É melhor você vir também, já que é “o almirante no comando de nossa defesa naval”, mesmo que em caráter temporário.

Marlowe riu.

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги