Ah Soh se encaminhava a passos pesados para o divã no boudoir. A última vez em que dormira ali, mesmo com aporta do quarto fechada, seus roncos haviam sido ensurdecedores, deixando Angelique ainda mais transtornada.

— Não, Ah Soh, não precisa dormir aqui. Pode ir agora, e volte com o café da manhã, está bem?

A mulher deu de ombros.

— Boa noite, miss.

Angelique trancou a porta depois que a criada saiu e na luz aconchegante, sozinha, e finalmente em paz, girou indolente ao ritmo de uma valsa cantarolada. Um momento depois, seus ouvidos captaram os acordes abafados do piano. Ah, é Henri, concluiu ela, reconhecendo seu jeito de tocar. Ele é um bom pianista, melhor do que Vervene, mas não se compara a André. Chopin. Uma música suave, delicada, romântica.

Ela se balançou ao ritmo da adorável melodia, e depois viu seu reflexo no espelho alto. Contemplou-se por um instante, de um lado e de outro, depois levantou os seios, como costumava fazer quando ficava a sós com Colette, ajeitando-os de várias maneiras, para verificar se assim se tornavam mais ou menos desejáveis.

Um gole de champanhe, as borbulhas fazendo cócegas, a música e o álcool a acalentando. Um impulso súbito e excitado levou-a a deixar o penhoar cair, e depois levantou a camisola, mais e mais alto, admirando a imagem no espelho, as pernas e a virilha, os quadris e os seios, e depois a nudez total, posando de várias maneiras, usando a camisola arrepanhada para encobrir ou revelar.

Outro gole de champanhe. Depois, ela mergulhou um dedo no copo e levou o líquido aos mamilos endurecidos, como lera que as grandes cortesãs parisienses faziam, às vezes usando o Château d’Yquem doce ali, e também em outros lugares. É curioso que duas das mais famosas cortesãs no centro do mundo sejam inglesas.

Angelique riu para si mesma, arrebatada pela noite, a música e o vinho. Depois que eu tiver um ou dois filhos e completar vinte e um anos”; quando Malcolm tiver uma amante e eu me encontrar preparada para um amante especial, é o que farei... para o prazer dele e o meu, e antes disso para o de Malcolm.

Outro gole, mais outro, e ela acabou o champanhe, lambendo a última gota, lânguida, observando pelo espelho, a língua escorregando em torno do copo, brincando com o copo. Com outra risada, largou o copo na penteadeira, não notou quando caiu para o tapete, os ouvidos sintonizados apenas em Chopin, a atenção em suas paixões latentes — os olhos fixados no espelho, agora a imagem refletida mais próxima, numa intimidade despudorada.

Lentamente, Angelique inclinou-se para a frente, abaixou o pavio no lampião, as sombras se tornando mais suaves agora, e depois recuou um pouco, a pessoa no espelho ainda ali, fascinante, sensual. Os dedos entraram em movimento, como que dotados de vida própria, vagueando, acariciando, o coração disparado, palpitando com o prazer crescente. Os olhos fechados agora, imaginando Malcolm alto, forte e com um cheiro irresistível, levando-a para o quarto, estendendo-a sobre as cobertas, deitando com ela, também nu, seus dedos vagueando, acariciando.

Ori empurrara a porta do armário no outro cômodo, saíra sem fazer barulho, e agora se encontrava nas sombras profundas perto da porta entreaberta, observando-a, o coração ressoando em seus ouvidos. Fora fácil para ele esconder-se entre as caixas, vestidos e anáguas pendurados, mais fácil ainda recuar para fundo, a fim de se tornar invisível, quando a criada abrira o armário. Fora fácil também ouvir os últimos estalidos das trancas, e perceber quando Angelique ficara a sós.

Na semi-escuridão do quarto, ela estava deitada na cama, os olhos fechados um pequeno tremor percorrendo seu corpo de vez em quando, o rosto nas sombras’ o corpo em parte nas sombras, sombras que dançavam nos movimentos da pequena chama, agitada pelas correntes de ar. Sem fazer barulho, Ori saiu da escuridão para o limiar. Fechou a porta, com um estalido. A música distante abafou o ruído. Angelique abriu os olhos, focalizou, e avistou-o.

Algum sentido lhe disse que era ele — o assassino da Tokaidô, o pai da criança que nunca deveria nascer, que a violara, mas não deixara lembrança de dor ou estupro, apenas sonhos parcialmente eróticos, metade de sono, metade de vigília... e que ela se encontrava indefesa, e naquela noite seria assassinada.

Os dois mal respiravam. Imóveis. Esperando que o outro tomasse a iniciativa. Ainda em choque, Angelique contemplou sua juventude, não devia ser muito mais velho do que ela, um pouco mais alto, uma espada-faca embainhada na cintura, a mão direita no cabo, barba e cabelos curtos e bem aparados, ombros largos, quadris estreitos, camisa ordinária, calções largos, pernas musculosas, sandálias de camponês. O rosto na sombra.

É apenas outro sonho, com toda certeza, não precisa ter medo...

Aturdida, ela soergueu a cabeça, apoiou-a na mão, gesticulou para que ele se deslocasse para a luz.

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