Malcolm sorriu, as dores momentaneamente esquecidas, o Witch esquecido. Angelique parecia espetacular na cama, viçosa, embora pálida, feliz e atenciosa, bastante satisfeita por vê-lo.
— Ela disse que amanhã à noite já terá se recuperado por completo, Jamie. Por que não realizamos um grande jantar aqui? Nós, Dmitri, Babcott, Marlowe, se estiver de folga, e Pallidar, pois os dois são ótimas companhias, apesar de adularem Angelique como cachorrinhos.
— E o que me diz de Phillip e Sir William?
— Phillip, sim, mas não Sir William... não, é melhor deixá-los de fora. O que acha do conde Zergeyev? Ele sempre nos proporciona boas risadas.
— Se o convidar, terá de incluir todos os ministros... não poderia deixar Sir William de fora.
— Tem razão. Providencie um jantar simples, e deixaremos para convidá-los outra noite.
— Cuidarei de tudo.
Jamie sentia-se contente por ter restabelecido o relacionamento amigável com Malcolm. Entraram juntos na suíte. Todos os danos causados pelo incêndio já haviam sido reparados, embora ainda restasse um leve cheiro de fumaça.
— O que acha de Ketterer?
— Ele tem de defender nossos interesses ou cai fora. — Malcolm sentou à sua escrivaninha, começou a empilhar a correspondência que queria enviar. — A mãe já teve ter conversado a respeito com o governador.
— É verdade.
Malcolm levantou os olhos subitamente, percebendo certa estranheza na voz de Jamie. Depois de um momento, ele comentou:
— É curioso como nos sentimos confiantes de que ela fará isso e não temos a menor confiança de que serei capaz de persuadi-la a aprovar meu casamento.
— Não sei como responder a isso,
Malcolm balançou a cabeça, devagar, observando o rosto firme e curtido pelo tempo, o corpo forte e resistente, e especulou se também seria assim ao completar trinta e nove anos... daqui a dezenove anos.
— Recebeu outra carta dela?
— Recebi, trazida pelo Ocean Witch, e não contém boas notícias, lamento dizer.
— É mesmo? Sente-se, Jamie. O que ela diz?
— Desculpe, mas... Ela reiterou a ordem para que eu ajude o Dr. Hoag a despachá-lo de volta para Hong Kong imediatamente, confirmando que seria despedido ao final do mês, se isso não acontecer.
— Pode esquecer. Escreveu para ela, como eu mandei, dizendo que deve obedecer às ordens do
— Escrevi.
— Eu também. Ponto final neste assunto. Sua carta e a minha devem ter cruzado com a dela. — Malcolm acendeu um charuto, percebeu que seus dedos tremiam. — Você nunca fumou?
— Nunca. Experimentei uma vez e não gostei.
— Esqueça essa bobagem de dispensa. Quais são as outras más notícias?
— Tenho toda a correspondência e recortes à sua espera, quando quiser. Os negócios andam ruins por toda parte. Perdemos o Racing Cloud... já deveria ter chegado a San Francisco há muito tempo.
— Mas que droga!
O Racing Cloud integrava a frota de clíperes, vinte e dois navios. Os clíperes, com três mastros, dominavam os mares, eram muito mais velozes nas rotas marítimas de longo curso do que os pesados vapores, que tinham de carregar o carvão. Sua carga era de chá, seda e especiarias, mercadorias sempre muito procuradas e agora, por causa da guerra americana, astronomicamente valiosas... ainda mais se desviadas para o Sul.
— O seguro nos dá cobertura, não é?
— Receio que não. Isso nunca ocorre, nem mesmo por parte do Lloyd's. Podem alegar que foi um ato de guerra. Afinal, é uma zona de guerra.
— Tem razão. Vai nos custar um bom dinheiro. E é lamentável a perda da tripulação. O capitão não era Caradoc?
— Isso mesmo. Eles devem ter enfrentado um furacão... há informações sobre vários, ao largo do Havaí, embora estejam atrasados este ano. O imediato era meu primo, Duncan McGregor.
— Sinto muito.
Ainda mais deprimido, Struan olhou para a cômoda, onde o elixir o esperava. Fico imaginando se as mesmas tempestades não afundaram também o Savannah Lady, junto com o jovem Pedrito Vargas e nosso pedido para cinco mil fuzis, pensou ele, distraído. O que o lembrou de uma coisa.
— Aqueles canhões na baía de Mirs... não foram vendidos por nosso intermédio, não é?
— Não, ao que eu saiba.
Era a resposta normal a tal pergunta. Ambos tinham conhecimento das grandes vendas de armas para os mercadores chineses, que sempre representavam o governo manchu. O que acontecia depois da entrega em Cantão ou Xangai era outro problema.
Malcolm pensou: Sou capaz de apostar cinqüenta mex contra um dólar que eram nossos, de um jeito ou de outro. Ele estava a par de um dos maiores segredos da Struan: o tênue relacionamento de amigo-inimigo entre a Casa Nobre e os mercadores marítimos Wu Chois do Lótus Branco, iniciado pelo avô e mantido por seu pai. E o que eu farei em relação a eles? — perguntou-se Malcolm, subitamente cansado de Iocoama, e ansioso em assumir o manto e os segredos do avô... e confrontar a mãe.
— Daqui a uma semana ou por aí — murmurou ele.
— Como,
— Nada. O que mais, Jamie?