Muito depois do escurecer, Yoshi e sua guarda, em silêncio e disfarçada com roupas de soldados comuns, seguiam cansados pelas ruas desertas da cidade adormecida, a antiga capital, onde os imperadores e a corte imperial haviam vivido por séculos.
A cidade fora construída ao estilo chinês, com ruas retas, as ruas transversais formando ângulos retos, com o vasto palácio proibido e seus jardins na área central. Apenas os telhados podiam ser avistados por trás dos muros altos... com seis portões. Yoshi evitou-os com o maior cuidado, querendo se esquivar às patrulhas de Ogama e aos samurai
— Quantos guerreiros tenho em Quioto, Akeda? — perguntou ele, as dores dos dias de marcha forçada começando a desaparecer.
Com expressão sombria, o velho general arriou na água, com apenas um metro de profundidade, ao seu lado. A casa de banho situava-se no reduto interior, todas as criadas haviam sido dispensadas, e sentinelas postadas nos acessos.
— Oitocentos e dois, dos quais oitenta estão doentes ou se recuperando de ferimentos, todos jurados a você, todos de confiança, todos montados. Mais os dezoito que você trouxe.
No momento em que Yoshi chegara, Akeda dobrara a guarda. Era um hatomoto vigoroso, de uma família que servia há gerações ao clã Toranaga, e agora comandava sua guarnição em Quioto.
— Não é o suficiente para protegê-lo — acrescentou ele, em sua voz rouca.
— Estou seguro aqui.
Pela lei do legado, aquele era o único complexo defensável em Quioto, capaz de alojar cinco mil homens, se fosse necessário, todos os outros
— Duvida disso, Akeda?
— Dentro dos nossos muros, não. Referia-me ao exterior.
— Aliados? Com quantos
Akeda deu de ombros, irritado.
— Foi um grande erro se sujeitar a tamanho risco, viajando com poucos guardas, e ainda mais perigoso vir para Quioto. Se eu tivesse sido avisado antes, poderia sair para encontrá-lo com um destacamento e escoltá-lo até aqui. Se seu pai estivesse vivo, teria proibido essa...
— Mas meu pai não está vivo. — Os lábios de Yoshi se contraíram numa linha dura. — Aliados?
— Se erguesse seu estandarte em Quioto, Sire, seu estandarte pessoal, a maioria dos
— Isso pode ser interpretado como traição.
— Sinto muito, mas a verdade é, em geral, traiçoeira no seu nível, lorde... e muito difícil de se encontrar. — O rosto velho e enrugado se desmanchou num sorriso. — A verdade: se erguer a bandeira do xogunato, não terá o apoio de quase nenhum dos
— Quantos samurai
— Dizem que mais de dois mil, homens escolhidos a dedo, todos em casas de guarda fortificadas ao redor do palácio, perto dos guardas nominais em nossos portões. — Akeda tornou a sorrir, sem humor, ao ver os olhos de Yoshi se contraírem. — Todo mundo sabe que é contra a lei, mas ninguém lembrou a ele, ninguém resistiu. Ogama vem trazendo seus homens em grupos de dez e vinte desde que expulsou a raposa velha do Sanjiro, com Katsumata e seus
Akeda arriou ainda mais na água, antes de acrescentar:
— Correm rumores que Ogama tem mais dois a três mil samurai
— É mesmo?
— Seu controle sobre Quioto aumenta mais um pouco a cada dia, suas patrulhas dominam as ruas, exceto pelos bandos ocasionais de
— Os
— Estão, sim. Circulam rumores de que se preparam para algum golpe grande. Há cerca de uma semana alguns deles atacaram uma patrulha de Ogama, chamando-o abertamente de traidor. Ogama ficou furioso e, desde então, vem caçando-os. Há...
Uma batida na porta interrompeu-o. O capitão da guarda abriu a porta.
— Com licença, lorde Yoshi. Um emissário de lorde Ogama está no portão, solicitando uma audiência.
Os dois homens ficaram surpresos. Yoshi disse, irritado:
— Como ele descobriu que cheguei? Percorremos disfarçados as últimas cinqüenta ri. Esperei nos arredores de Quioto até escurecer, contornamos as barreiras, e não deparamos com nenhuma patrulha. Deve haver um espião aqui.