Em poucos momentos, espiões levaram a notícia para o palácio, para grupos de shishi e para os daimios, informando que os dois homens mais perigosos do Nipão haviam saído para as ruas em colunas armadas, no mesmo instante, por mais espantoso que isso pudesse parecer. Um espião logo encontrou Katsumata e sussurrou o local do encontro; quando os samurais de Ogama e Yoshi passaram pelos portões neutros, Katsumata e trinta homens se encontravam postados nas proximidades... para o caso de surgir a oportunidade de um ataque suicida.

O pátio tinha cem metros quadrados, com paredes de madeira leves, fáceis de romper, o alojamento de um só andar e o estábulo também eram de madeira, escurecida pelo tempo. Guardas dos dois lados ocuparam posições opostas e outros levaram quatro cadeiras dobráveis para o centro do pátio.

Os dois homens saíram juntos dos palanquins, encaminharam-se para as cadeiras e sentaram-se. Depois, o general Akeda e Basushiro, o principal conselheiro de Ogama, sentaram-se ao lado deles. Basushiro estava na casa dos quarenta anos, um samurai de olhos estreitos, estudioso, de uma família de chefes hereditários da burocracia de Choshu há gerações. Houve reverências formais, e em seguida os olhos dos dois líderes se encontraram.

Yoshi era dois anos mais moço que Ogama — vinte e seis anos — e alto, enquanto o outro era baixo e corpulento. Yoshi tinha o rosto raspado, em contraste com a barba cerrada negro-azulada de Ogama. A linhagem de Yoshi era mais nobre, embora a de Ogama fosse igualmente antiga, também renomada, os dois se equilibrando em determinação implacável, ambição e dissimulação.

Sem pressa, dispensaram o tempo necessário aos cumprimentos obrigatórios e perguntas polidas, com esquivas e evasivas, esperando pelo início... as mãos nos punhos das respectivas espadas.

— Sua vinda é uma agradável surpresa, lorde Yoshi.

— Tinha de vir para verificar pessoalmente que os rumores delirantes que ouvi não eram verdadeiros.

— Que rumores''

— Entre vários, o de que as forças de Choshu impedem os representantes do xogunato, os representantes legais, de assumirem suas posições em torno dos portões.

— Uma medida necessária para proteger a divindade.

— Desnecessária e contra a lei.

Ogama riu.

— A divindade prefere minha proteção ao traiçoeiro Conselho de Anciãos, que assinou os tratados com os gai-jin contra seu desejo e continua a negociar com eles contra sua vontade, em vez de expulsá-lo, como ele pediu. — Ele fez um sinal para Basushiro. — Por favor, mostre a lorde Yoshi.

O pergaminho, assinado pelo imperador, solicitava “ao lorde de Choshu para assumiro comando dos portões, até que seja resolvida a lamentável questão dos gai-jin”.

— Não é da competência da divindade decidir sobre problemas temporais. Esta é a lei... e devo lhe pedir que se retire.

— Lei? Está se referindo à lei de Toranaga, a lei do xogunato imposta à força pelo primeiro de sua linhagem, e que repudiou o direito antigo de o imperador governar, concedido pelo céu.

Os lábios de Yoshi contraíram-se numa linha fina e dura.

— O céu concedeu ao imperador o direito de interceder entre nós, mortais, e os deuses, em todas as questões espirituais. As questões temporais sempre estiveram na esfera de competência de mortais, de xóguns. O imperador concedeu ao xógum Toranaga e seus descendentes o direito perpétuo de cuidar de todas as questões temporais.

— Repito que o imperador foi forçado a concordar...

— E eu repito que esta é a lei da terra, que nos manteve em paz por dois séculos e meio.

— Não é mais válida. — Ogama acenou com o papel. — O que um imperador anterior foi obrigado a conceder, este imperador cancelou, por sua livre e espontânea vontade.

A voz de Yoshi tornou-se mais suave, mais perigosa:

— Um equívoco temporário. É evidente que o filho do céu recebeu conselhos indevidos de descontentes interesseiros, como em breve vai compreender.

— Está me acusando?

Os quatro homens apertaram o punho de suas espadas.

— Apenas ressalto, lorde Ogama, que seu pedaço de papel foi obtido por falsas informações e não está de acordo com a lei. A presença é e sempre foi cercada por homens ambiciosos... e mulheres também. Foi por isso que ele concedeu direitos perpétuos ao xógum Toranaga e ao xogunato para orientá-lo em todas as questões...

Uma gargalhada interrompeu-o e deixou todos os samurais ao longo dos muros ainda mais nervosos.

— Orientar? Orientar, você disse? A divindade ser orientada por Anjo Nori, Toyama, Adachi, e agora aquele retardado do Zukumura? Por tolos incompetentes, que prevalecem sobre você quando querem, fazem acordos estúpidos com os infames gai-jin, contra os conselhos de todos os daimios, acordos que expõem a terra dos deuses e todos nós à destruição? — O rosto de Ogama contraiu-se em raiva. — Ou ele deve esperar a orientação do menino Nobusada sobre a melhor maneira de tirar castanhas do fogo?

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