— Se essa vai ser a lei... — murmurou um dos homens, coçando a cabeça. — Sensei, quando o filho do céu recuperar o poder, o que iremos fazer, todos nós?

Katsumata olhou para Takeda.

— O que você acha?

— Não estarei vivo e, assim, isso não tem a menor importância. Sonno-joi é suficiente, a única coisa que me interessa.

— Alguns de nós devem sobreviver para participar da nova liderança — disse Katsumata. — Mais importante por enquanto: Yoshi Toranaga. Como eliminá-lo?

— Quando ele sair de seu refugio, devemos estar preparados — propôs alguém.

— Isso é claro — disse Takeda, irritado. — Mas ele estará cercado por guardas; duvido muito que consigamos sequer nos aproximar de sua pessoa. O sensei disse que não podemos acionar nossos homens lá dentro. Portanto, terá de ser no lado de fora, mas será muito difícil.

— Meia dúzia de nós, com flechas, nos telhados?

— Uma pena não termos um canhão — comentou outro. Continuaram ali, à claridade crescente, cada um imerso em seus pensamentos, visando Yoshi como o troféu maior. Mas os cinco dias de expectativa eram mais importantes, depois o ataque a Ogama... a única maneira de conquistar os portões.

— Talvez seja mais fácil para uma mulher se infiltrar no bastião de Toranaga, neh? — sugeriu Sumono. — E uma vez lá dentro...

Ela sorriu, sem concluir a frase.

Nuvens cobriam o céu agora. A tarde era sombria. Mesmo assim, as ruas largas nos arredores do quartel do xogunato estavam apinhadas de moradores da cidade, comprando e vendendo no mercado em frente à entrada principal, junto com sacerdotes budistas vestidos de laranja, as inevitáveis tigelas de esmolas estendidas, samurais desfilando de um lado para outro, sozinhos ou em grupos. As patrulhas de Ogama eram proeminentes, cada homem com a insígnia do feudo bordada na roupa. Katsumata, Sumomo e meia dúzia de shishi circulavam entre a multidão, disfarçados, usando enormes chapéus cônicos. Donas de casa, criadas, servos, varredores de rua, coletores de adubo noturno, carregadores e vendedores ambulantes, emprestadores de dinheiro, escritores de cartas, adivinhos, palanquins e pôneis para samurais e bem-nascidos, mas nunca, em parte alguma, um veículo com rodas.

Todas as pessoas que passavam pelos portões do xogunato, abertos agora, mas com uma forte guarda, faziam uma reverência polida, de acordo com as respectivas posições, e seguiam adiante, apressadas. A notícia de que o guardião do herdeiro chegara, sem qualquer pompa, o que era inacreditável, correra num instante por toda a cidade... e isso, somando-se aos rumores sobre a iminente visita, sem precedentes na memória histórica, do próprio xógum, árbitro da Terra, personagem aterrador, envolto por mistério, quase tanto quanto o filho do céu, e até casado, segundo se dizia, com uma das irmãs da divindade, era quase demais para se suportar.

Os samurais, preocupados, começaram a verificar a prontidão de suas armas e armaduras, os daimios e seus conselheiros de confiança tremeram com a notícia, avaliando suas posições, o que fazer, e como evitar qualquer ação decisiva, quando ocorresse o inevitável, a confrontação entre lorde Yoshi e lorde Ogama.

A atividade na rua diante dos portões do quartel do xogunato cessou no momento em que um cortejo armado saiu, com os estandartes de Yoshi à frente, soldados cercando um palanquim fechado, mais soldados na retaguarda. No mesmo instante, todos nas proximidades se ajoelharam, encostaram a cabeça no chão, os samurais permaneceram imóveis, fazendo uma reverência profunda, até o cortejo passar. Só depois que Yoshi e seus homens desapareceram é que ressurgiu um arremedo de normalidade. A não ser pelo fato de Katsumata e seus companheiros seguirem o cortejo, com extrema cautela.

A menos de um quilômetro dali, similar cortejo armado também deixou o quartel principal de Choshu, com os estandartes de Ogama à frente, e sob demonstrações de submissão ainda maiores. Há dias que ele fora alertado sobre a chegada de seu inimigo, assim como vinha monitorando o progresso do xógum Nobusada. Seus conselheiros haviam recomendado que emboscasse e destruísse Yoshi nos arredores de Quioto, mas Ogama não acatara a sugestão.

— É melhor que ele se torne meu peão. Depois que estiver aqui, onde poderá se esconder, para onde poderá fugir?

Os detalhes para a reunião urgente solicitada por Ogama haviam sido acertados pelos conselheiros de ambos. Deveria ocorrer no pátio vazio de um quartel neutro, eqüidistante dos dois quartéis-generais. Cada um levaria cem guardas. Apenas vinte estariam montados. Ogama e Yoshi iriam em palanquins blindados e protegidos. Um conselheiro para cada um. Chegariam ao mesmo tempo.

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