Sumomo também relatara os fatos da morte de Shorin. Mas não sabia mais nada sobre Ori ou Hiraga, a não ser que o ferimento de Ori estava sarando, ambos se escondiam na colônia em Iocoama, junto com Akimoto, e Hiraga se tornara, por algum milagre, confidente de um dos líderes dos gai-jin.
— Tem toda razão, Sumomo, o Bakufu nunca vai se recuperar — concordou Katsumata. — Nosso próximo golpe encerrará o xogunato de Toranaga para sempre.
Logo depois da bem-sucedida eliminação do xógum Nobusada — deixando a princesa Yazu ilesa, a qualquer custo —, os shishi desfechariam um ataque em massa contra o quartel-general de Ogama, para assassiná-lo; ao mesmo tempo, Katsumata e outros capturariam os portões, hasteando o estandarte de Sonno-joi, declarando que o poder voltava ao imperador, a quem todos os verdadeiros daimios e samurais se apresentariam para prestar obediência.
— Sonno-joi — murmurou ela, exultante, como todos os outros. Exceto Takeda, um dos shishi de Choshu. Ele mudou de posição, inquieto.
— Não tenho certeza sobre o assassinato de Ogama. Ele é um bom daimio, um bom líder... impediu que Sanjiro tomasse o poder, impediu que Tosa tomasse o poder, é o único daimio a cumprir a ordem do imperador de expulsar os gai-jin. Afinal, não foi Ogama quem determinou o fechamento dos estreitos de Shimonoseki? Só nossos canhões se opõem aos navios gai-jin... apenas as forças de Choshu se mantêm na linha de frente, não é mesmo?
— É verdade, Takeda — disse um renomado shishi de Satsuma. — Mas o que sensei Katsumata sempre nos lembrou? Que Ogama mudou, agora que roubou o controle. Se ele respeitasse o imperador, seria muito simples, agora que controla os portões, declarar Sonno-joi e devolver todo o poder ao imperador. E isso o que faremos quanto tivermos os portões.
— Eu sei, mas...
— Muito simples para ele, Takeda. Mas o que Ogama fez? Apenas usou o poder para manipular a corte em seus caprichos. Quer ser o xógum. Nada menos.
Soaram murmúrios de concordância e depois Sumomo declarou:
— Por favor, Takeda, desculpe-me, mas Ogama é uma grande ameaça. Todos sabem que sou uma Satsuma, assim como o sensei Katsumata, concordamos que Sanjiro tem feito algumas coisas boas, mas nada por Sonno-joi. Por isso, ele deve renunciar ao poder, de bom grado ou pela força, e é o que vai acontecer. O mesmo se aplica a Ogama. Reconheço que ele fez algumas coisas boas, mas agora está errado. A verdade é que nenhum daimio com o controle dos portões, tão perto de se tornar o xógum, renunciará ao poder de bom grado.
— E se pedíssemos a Ogama? — sugeriu Takeda.
— Desculpe-me, por favor, mas tal petição não teria o menor valor. Quando tomarmos posse dos portões, a fim de evitar a guerra civil e a possibilidade de algum daimio se sentir tentado outra vez, devemos ir além e solicitar ao imperador a abolição do xogunato, do Bakufu e de todos os daimios.
Em meio a comentários surpresos diante de proposta tão radical, Takeda explodiu:
— Mas isso é uma loucura! Sem o xogunato e sem os daimios, quem vai governar? Haverá o caos! Quem paga nossos estipêndios? Os daimios! Os daimios possuem todos os koku de arroz...
Katsumata interveio:
— Deixe-a concluir, Takeda, e depois poderá dizer o que quiser.
— Sinto muito, Takeda, mas essa é uma idéia de Hiraga-san, não minha. Hiraga disse que, no futuro, os daimios serão apenas chefes nominais, e só os bons, que o poder será exercido por conselhos de samurais, de todos os níveis, baseados na igualdade, e esses conselhos decidirão tudo, dos estipêndios a que daimio é digno, e quem o sucederá.
— Nunca dará certo — insistiu Takeda. — É uma péssima idéia.
Muitos discordaram, a maioria apoiou Sumomo, mas Takeda ainda não se convencera. Ao final, ela perguntou:
— Sensei, é uma péssima idéia?
— É uma boa idéia, se todos os daimios concordarem — respondeu Katsumata.
Ele sentia-se satisfeito por constatar que seus ensinamentos davam frutos, que os shishi queriam chegar ao futuro pelo consenso. Como os outros, Katsumata estava acocorado, falando pouco, sua mente concentrada na traição, fervendo de raiva por aquele novo atentado contra a sua vida, e a fuga por um triz.
Por bem pouco desta vez, pensou ele, o gosto de bílis outra vez na boca. O cerco se aperta. Quem é o traidor? Só pode estar aqui. Nenhuma das outras unidades de shishi sabia que eu passaria a noite na estalagem dos Pinheiros Sussurrantes. O traidor se encontra aqui. Quem é ele... ou ela? Quem?
— Continue, Sumomo.
— Eu só queria acrescentar... Takeda-san, você é Choshu, assim como Hiraga-san, há outros de Tosa, o sensei, eu e muitos mais de Satsuma, inúmeros dos outros feudos, mas acima de tudo somos shishi, com deveres que prevalecem sobre a família, sobre o clã. Na Nova Ordem, esta será a lei... a primeira lei para todo o Nipão.